quarta-feira, 3 de junho de 2015

Helen Keller, do estágio à pesquisa em incontinência urinária e vida sexual em mulheres idosas

Escrito por  Beltrina Côrte. Fotos: Arquivo Pessoal
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helen-keller-do-estagio-a-pesquisa-em-incontinencia-urinaria-e-vida-sexual-em-mulheres-idosas-fotodestaqueA fisioterapeuta e mestranda em Gerontologia pela PUC-SP, Helen Keller Frank Conceição Leal de Oliveira, fala sobre suas pesquisas focadas na área de uroginecologia, especialmente em incontinência urinária e qualidade de vida sexual em mulheres idosas ao Portal do Envelhecimento.
A  incontinência urinária não é uma condição normal, inerente ao processo do envelhecimento nem a nenhuma fase da vida. O uso de fraldas ameniza o quadro por um período. 
Helen Keller Frank Conceição Leal de Oliveira, é solteira, nascida em Cotia (SP), em fevereiro de 1990. Seu nome foi dado em homenagem à primeira pessoa surda e cega a conquistar um bacharelado porque sua professora, Anne Sullivan, conseguiu romper o isolamento imposto pela quase total falta de comunicação, permitindo à menina tornar-se uma célebre escritora, filósofa e ativista social. A história da Helen Keller (1880-1968) virou o filme The Miracle Worker (2000).
Ela mora atualmente no interior paulista, com seus pais, razão de seu viver, que a apoiam em todas suas batalhas, especialmente sua mãe, a quem deve muito suas conquistas. Helen é filha temporã e  tem duas irmãs mais velhas e casadas. Helen Keller cursou o ensino médio no colégio anglo, fez graduação em Fisioterapia, concluída em 2012, e logo em seguida engatou um curso de pós graduação em fisioterapia geriátrica pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), concluído em 2014. Nesse período realizou diversos cursos relacionados à área de uroginecologia, participando também de diversos congressos e simpósios. 
Atualmente faz mestrado em Gerontologia, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de participar como fisioterapeuta colaboradora e pesquisadora do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha (HMEC), localizado na zona norte de São Paulo, onde há um grupo de pesquisa com enfoque em temáticas relacionadas à saúde da mulher.
Portal - Como você decidiu ser Fisioterapeuta? 
Helen Keller F. C. Leal de Oliveira - Difícil essa pergunta!! Mas vamos lá, inicialmente nunca pensei em atuar profissionalmente como Fisioterapeuta, nunca mesmo!! meu sonho desde de criança era ser Delegada e sempre dizia isso à todos que me perguntavam, sei que uma área é totalmente antagônica a outra. Mas como sempre digo para as pessoas que me perguntam “não fui eu que escolhi a fisioterapia, foi ela que me escolheu, devido a circunstâncias da vida”. Confesso, sim, que inicialmente foi difícil aceitar essa mudança, mas a cada dia que passava na graduação, percebia como eu gostava da Fisioterapia. Até que um dia, na devolutiva de uma prova prática, quase pensando em desistir da área porque achava que não tinha perfil e sempre me batia aquele medo e insegurança, uma grande professora que eu sempre admirei como profissional e ser humano me disse a seguinte frase: “Helen minha querida, você é mais fisioterapeuta do que imagina”. Depois desse dia as dúvidas que tanto me afligiam deram lugar às certezas que procurava, e amo ser fisioterapeuta. 
E a escolha por trabalhar com o tema da incontinência urinária feminina e sexualidade?

No penúltimo ano da minha graduação tive a oportunidade de auxiliar uma professora em um estágio extracurricular na área de Saúde da Mulher. No início era para eu ficar apenas três meses, e quando percebi estava há quase um ano participando do estágio. A cada dia me apaixonava pela temática, principalmente por assuntos relacionados a sexualidade e uroginecologia. Em cada atendimento me encantava a devolutiva das pacientes em relação ao tratamento e no último ano de faculdade tinha que decidir em qual temática iria realizar meu trabalho de conclusão de curso, o temido TCC. Na graduação eu também gostava da área da fisioterapia respiratória e achava que iria seguir carreira nela, porém me frustrei muito quando fui para a prática e entrei em uma UTI. Ali a ficha caiu e vi que aquilo não me fazia feliz. Foi aí que decidi fazer algo relacionado à área de fisioterapia uroginecológica, mas nesse período minha orientadora não poderia mais prosseguir com a minha orientação devido a alguns problemas pessoais, indicando-me outra orientadora, a fisioterapeuta Dra. Gláucia Ap. dos Reis, que coordenava o setor de fisioterapia do Hospital Municipal Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, localizado na zona norte de São Paulo, que prestava atendimentos de fisioterapia uroginecólogica. Fui até o setor conhecer e explicar os objetivos do meu estudo. Após a análise me aceitaram. Sempre com o auxílio dela e de todos da equipe multidisciplinar do hospital, principalmente da equipe de fisioterapia - inclusive dos estagiários -, ao final de 2012 concluí o meu trabalho, apresentando-o para toda a equipe desse setor. As considerações foram muito positivas. Daquele momento em diante fui percebendo o quanto amava essa área, e que queria exatamente atuar com uroginecologia e com pesquisa científica. Trabalhos que me davam sensação de felicidade e realização profissional. Foi assim que após a graduação comecei a me aprofundar na área, cursando pós-graduação, cursos relacionados à incontinência urinária, e comecei a atuar com maior ênfase em equipes de pesquisas científicas, e clinicar.
Qual é a prevalência da doença? 
Estima-se que 50 milhões de pessoas no mundo sofram com quadros de incontinência urinária, sendo mais comum em mulheres e podendo acometer até 50% delas em alguma fase de suas vidas. No Brasil, apesar de muitas mulheres não relatarem a presença de  incontinência, estima-se que 11 a 23% da população feminina seja incontinente, em idosas essa prevalência pode variar entre 8 a 35% e em idosos institucionalizados a prevalência pode chegar a 57,3%. A sociedade Brasileira de Urologia (SBU) estima que 1 em cada 25 brasileiros apresentarão um quadro de incontinência urinária ao longo da sua vida. Atualmente, no Brasil, são poucos os estudos que relatam sobre os fatores de risco e a prevalência da incontinência urinária, dificultando, assim, saber qual é de fato a dimensão dessa problemática em nossa população.
Em teus estudos, quais foram as principais questões trabalhadas e a que conclusões você chegou?
Dentro das minhas pesquisas científicas sempre trabalho com as questões relacionadas à incontinência urinária e qualidade de vida sexual em mulheres idosas. Venho observando que, apesar da fisioterapia uroginecológica ter crescido muito dentro do país, por meio de estudos e de profissionais extremamente qualificados, ainda sinto falta de estudos que investiguem essa população a fundo, especialmente sobre a efetividade do treinamento da musculatura do assoalho pélvico dessas mulheres frente a resposta sexual. Nos resultados preliminares observo que os exercícios adequados nas mulheres acima de 60 anos (sendo que nesse período cheguei a atender pessoas acima de 80), cerca de 80% delas relatam que conseguem recuperar o fortalecimento dessa musculatura e a lubrificação vaginal. Além do surgimento rápido dos resultados nesse grupo, entre a 3° e 5° sessão, já é possível observar alguma resposta ante o tratamento fisioterapêutico, apresentando resultados bem parecidos ou até melhores, em alguns aspectos, do que em mulheres adultas jovens e de meia idade.
E o uso de fraldas, ajuda?
A  incontinência urinária não é uma condição normal, inerente ao processo do envelhecimento nem a nenhuma fase da vida. A qualquer sinal é importante procurar tratamento e ajuda profissional adequada. O uso de fraldas e/ou absorventes higiênicos não resolve o problema na sua causa, podendo amenizar o quadro por um período. É importante procurar auxílio e muitas vezes o tratamento fisioterapêutico. Este, com a utilização de alguns recursos como  exercícios e uso de alguns aparelhos, pode diminuir ou até cessar os quadros de perdas urinárias.
helen-keller-do-estagio-a-pesquisa-em-incontinencia-urinaria-e-vida-sexual-em-mulheres-idosas-foto1Você está fazendo mestrado em Gerontologia. Quais contribuições esta área pode dar a esta questão?
O que me levou a cursar o mestrado em gerontologia é esse aspecto de que cada indivíduo é singular. Ao longo da minha graduação, pós e todos os estudos na área, sempre ouvia alguém dizer que cada indivíduo é um indivíduo. Confesso que já estava cansada de ouvir isso, porque na minha experiência clínica e na área de pesquisa, todos ao meu redor falavam isso porém não aplicavam. Fui observando que conhecer esse indivíduo como único não é tão simples como parece, principalmente quando estamos falando da pessoa idosa e que o processo de envelhecimento depende de fatores biopsicossociais, intrinsecamente relacionados a diversos aspectos. Por isso cada indivíduo envelhece de um jeito e que não somos o mesmo ser ao longo da nossa vida, ou seja, nos reinventamos a cada momento, de acordo com a nossa vivência. Foi exatamente isso que comecei a enxergar ao longo do tratamento de mulheres incontinentes idosas, quando elas começavam a se tratar e se autoconhecer em relação aos seus desejos e anseios. Elas mudavam suas perspectivas em relação a elas mesmas, a aparência e até mesmo a opinião frente a alguns aspectos como a sexualidade, fazendo-me ver que o envelhecer não é só perdas como nos é mostrado na vivência biomédica, mas também de ganhos e redescobertas. Na minha opinião, a maior contribuição que a gerontologia está trazendo à minha vida, tanto no âmbito profissional  quanto pessoal, é essa nova perspectiva de sair da “caixinha” dos aspectos clínicos que, infelizmente, nós, da área da saúde, somos condicionados, e realmente  “começar a enxergar esse indivíduo como único”, levando em conta os aspectos biológicos, psicológicos e sociais. 
A contribuição da gerontologia para a área da fisioterapia consiste principalmente em trazer essa nova perspectiva, a de se enxergar a pessoa idosa. Sabemos que não é algo tão fácil como nos é apresentado nos discursos das práticas clínicas. Esse novo olhar, com toda certeza, muda a maneira de se agir nas práticas clínicas e como realmente conduzir o atendimento de forma humanizada, interdisciplinar e individualizada. Um olhar que vê uma pessoa idosa como um sujeito de desejos e anseios, deixando de lado alguns preconceitos relacionados e pertinentes a esta fase da vida. Envelhecer, como já disse e volto a enfatizar, não consiste em apenas perdas, mas ganhos e redescobertas.
http://www.portaldoenvelhecimento.com/cuidados/item/3639-helen-keller-do-estagio-a-pesquisa-em-incontinencia-urinaria-e-vida-sexual-em-mulheres-idosas

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