domingo, 21 de agosto de 2016

Pedaço de pano

Escrito por  Leticia Sande (*)
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pedaco-de-pano-fotoDe tantas memórias, as minhas favoritas são das tardes deitadas lado a lado naquela cama dura. Ela se recordando do passado e eu o descobrindo. Numa dessas tardes, ela se levantou e depois de muito procurar, trouxe uma caixinha onde lá no fundo tinha um pedaço de pano. Eu olhei sem muito entender, mas ela logo foi falando: “Eu o usei no primeiro dia em que conheci seu avô. Eu o usei e era um vestido lindo! Só sobrou esse pedaço de pano”. 
Porque às seis da manhã ela levantava. Era quando o galo cantava.  
Às seis da manhã, todos os dias. Às seis da manhã, ela colocava seu vestido florido e sua colônia barata e, se em uma palavra pudesse ser resumida, com certeza seria: simplicidade.
Certa vez estávamos no avião, me lembro bem: Eu, muito pequena, queria chegar ao destino com a melhor aparência possível; então pensei porque não uma sombra azul e um batom roxo?  Cheia de orgulho perguntei: “Ficou bom, vó?” E ela com sua voz delicada me olhou e falou: “Acho que podia deixar um pouco mais simples”, limpando com seu lencinho de bolso o meu rosto de palhaço.
De tantas memórias, as minhas favoritas são das tardes deitadas lado a lado naquela cama dura. Ela se recordando do passado e eu o descobrindo. Numa dessas tardes, ela se levantou e depois de muito procurar, trouxe uma caixinha onde lá no fundo tinha um pedaço de pano. Eu olhei sem muito entender, mas ela logo foi falando: “Eu o usei no primeiro dia em que conheci seu avô. Eu o usei e era um vestido lindo! Só sobrou esse pedaço de pano”. 
Na minha cabeça de criança de seis, sete anos de idade, eu acreditei que SÓ tinha sobrado um pedaço de pano. Hoje sei que era muito mais. Era um pedaço de pano que durou a vida inteira, até que a morte os separasse.  Foi o primeiro e o último pedaço de pano. E, naquele momento, já não era mais um pano. Era tudo aquilo que eles tinham construído: todas as brigas, todas as alegrias, todos os choros e todas as risadas que habitavam o mesmo pedaço de pano.
Enquanto as coisas vão ficando mais fáceis e mais rápidas, as pessoas esquecem o “pedaço de pano” -  esquecem os momentos do dia e as coisas pequenas. As coisas simples, elas esquecem. E as coisas quebram sem ter um pano sobrando para remendar porque é sempre mais fácil comprar um novo do que costurar o antigo.
E se você me perguntar o que eu quero, eu quero mil pedaços de pano para poder costurar e descosturar quando for preciso. Porque comprar um novo pano não é simples. Comprar um novo destrói minhas tardes na cama dura. E elas são meu maior pedaço de pano.
(*)Leticia Sande (*)dedica este texto à sua Vó Margarida in memoriam

Triatlo. Paralimpíadas Rio 2016.

by Ricardo Shimosakai
O desafio de triatlo é completar a prova, que compreende 750m de natação, 20km de ciclismo e 5km de corrida, no menor tempo possívelO desafio de triatlo é completar a prova, que compreende 750m de natação, 20km de ciclismo e 5km de corrida, no menor tempo possível
COMO TUDO COMEÇOU
O primeiro triatlo documentado foi promovido em San Diego, na Califórnia (EUA), em setembro de 1974. A prova, que aconteceu em Mission Bay, consistiu em 5,63km de corrida, 8km de ciclismo e 548m de natação na baía. A partir daí, o esporte cresceu rapidamente e foi oficialmente incluído no programa Olímpico, a partir de decisão homologada no Congresso do Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1994, em Paris. A estreia aconteceu seis anos depois, em Sidney 2000.
O primeiro Campeonato Mundial de triatlo para atletas com deficiência sancionado pela Federação Internacional de Triatlo (ITU, na sigla em inglês) ocorreu em 1996, em Cleveland (EUA). A primeira competição em Jogos Paralímpicos acontecerá justamente no Rio 2016, reproduzindo o evento Olímpico, mas com ajustes nas distâncias: 750m de natação, 20km de ciclismo e 5km de corrida para atletas com diferentes deficiências. Em razão das curtas distâncias, o evento é conhecido como sprint triathlon.
SOBRE A COMPETIÇÃO
Como no triatlo Olímpico, o tempo passado nas transições – entre natação, ciclismo e corrida – é incluído no tempo geral da prova. Elas podem interferir diretamente no resultado final da competição, que tem como vencedor o atleta que completa o circuito primeiro. Em cada transição, os competidores podem contar com o auxílio de ajudantes, que são escolhidos pelos próprios atletas e devem estar devidamente identificados. Existem cinco classes no triatlo Paralímpico. Nos Jogos Rio 2016, haverá eventos de três classes para os homens (PT1, PT2 e PT4) e de três para as mulheres (PT2, PT4 e PT5).
VOCÊ SABIA?
O vácuo é uma técnica de ciclismo, onde os competidores pedalam imediatamente atrás um do outro, para aproveitar o vácuo gerado. Esta técnica é proibida no triatlo Paralímpico.
Para ter informações mais completas a respeito desta modalidade e qual a melhor maneira de assisti-la nos Jogos Paralímpicos, baixe o guia a seguir clicando no link Rio 2016. Guia do espectador - Triatlo
Fonte: Rio 2016

Transporte especial permite que pessoas com deficiência aproveitem o Ciclolazer

by Ricardo Shimosakai
Os dois programas oferecem brincadeiras e jogos às famílias nas manhãs de domingo.Os dois programas oferecem brincadeiras e jogos às famílias nas manhãs de domingo.
Crianças e adultos com deficiência, moradores da Regional CIC, desfrutaram de uma manhã espacial neste domingo (31). Em uma iniciativa da Prefeitura de Curitiba, elas participaram da primeira ação de auxílio transporte, que disponibilizou um micro-ônibus adaptado do programa Acesso para que pudessem conhecer e participar das diferentes atividades inclusivas promovidas pelos programas Ciclolazer e Inclusão Mais Bici, na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico.
Os dois programas oferecem brincadeiras e jogos às famílias nas manhãs de domingo. O skate adaptado é um deles, e permite que crianças com deficiência motora possam experimentar o equipamento. As bicicletas tandem, com dois e três lugares, permitem que cegos experimentem a sensação de pedalar, em companhia do guia ou acompanhante. As experiências também podem ser vividas pelos usuários de cadeira de rodas, com o uso da handbike.
“Parece que a gente tá flutuando”, exclamou dona Julia Twureck, de 73 anos, ao experimentar uma volta de skate na pista especial para pessoas com deficiência. Sem poder andar há pouco mais de um ano, vítima de um AVC, ela participou da programação acompanhada do marido Leônidas. Aproveitando a estrutura, que consiste em um sistema de suspensão por correias acolchoadas semelhante a uma tirolesa, ela também deu alguns passos. “Nunca imaginei ter esta oportunidade. Foi um dia especial”, disse.
“Uma experiência incrível para minha filha, que pode visitar esta praça pela primeira vez. Sem o transporte especial seria muito difícil, já que pra vir até o centro da cidade dá sempre muito trabalho e a gente acaba desistindo de sair”, relatou Carina Aparecida Ramos, mãe da Evelyn, de 10 ano, cadeirante e também deficiente visual. Segundo ela, a ideia é aproveitar as próximas oportunidades.
Ao todo, o micro-ônibus do programa Acesso trouxe 16 pessoas, entre deficientes e acompanhantes, num trajeto de aproximadamente 15 quilômetros desde a Regional da CIC. “Meu filho ficou muito feliz e eu também, por ver ele sair de casa e ter um pouco de lazer. A gente mora longe e seria muito difícil vir sem transporte especial”, observou Renata Sansão, mão do pequeno Alex, de 11 anos, que é cadeirante e não possui qualquer coordenação motora. “Sem este apoio dificilmente a gente sairia para passear. Nos deslocarmos para longe é demorado e trabalhoso”, comentou Marcos Henrique Oliveira, cadeirante e morador da CIC.
Fonte: Bem Paraná

E se todos os fins de semana tivessem três dias?

fonte: http://ihu.unisinos.br/559104-e-se-todos-os-fins-de-semana-tivessem-tres-dias

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Tênis em Cadeira de Rodas. Paralimpíadas Rio 2016.

by Ricardo Shimosakai
Disputado ponto a ponto, o tênis em cadeira de rodas estreou nos Jogos Paralímpicos na edição de Barcelona 1992.Disputado ponto a ponto, o tênis em cadeira de rodas estreou nos Jogos Paralímpicos na edição de Barcelona 1992.
COMO TUDO COMEÇOU
Muitos historiadores apontam o século XIII como data da provável origem do tênis. Mas, o esporte, no formato moderno, só surgiu depois, já no fim do século XIX, quando foi desenhado, patenteado e comercializado em 1873 por um major do exército inglês. Cerca de um século mais tarde, surgiu nos Estados Unidos a versão do tênis em cadeira de rodas.
Após sofrer uma lesão medular numa competição de esqui acrobático, o atleta Brad Parks conheceu Jeff Minnenbraker, que dava suas primeiras raquetadas como cadeirante. Parks se entusiasmou e passou a promover com sucesso o jogo de tênis em cadeira de rodas. Em 1979, surgiu o primeiro órgão regulador, em parceria com a Federação Americana de Tênis (USTA). O esporte figurou nos Jogos Paralímpicos Seul 1988, apenas como exibição, e passou a valer medalha em Barcelona 1992. Desde então, integrou o programa de todas as edições dos Jogos Paralímpicos.
SOBRE A COMPETIÇÃO
Para participar é preciso ser diagnosticado com deficiência locomotora. Se forem verificadas limitações em uma ou mais partes do corpo e a pessoa for considerada incapaz de participar de competições de tênis convencional, ela estará apta a disputar as partidas para cadeirantes. A principal diferença entre o tênis Paralímpico e o Olímpico é a regra dos dois quiques. Apesar de as cadeiras contarem com rodas adaptadas, que ajudam na movimentação, os atletas não têm a mesma capacidade de deslocamento. Por isso, devem rebater a bola para o outro lado da quadra antes do terceiro toque no chão.
VOCÊ SABIA?
A holandesa Esther Vergeer é uma lenda viva do tênis em cadeira de rodas. Ela se aposentou em 2013, após colecionar recordes: foram 42 Grand Slams, sete medalhas de ouro Paralímpicas, 15 anos como líder do ranking mundial e 10 anos invicta. Em disputas de simples, Vergeer tem no currículo 700 vitórias e apenas 25 derrotas.
Para ter informações mais completas a respeito desta modalidade e qual a melhor maneira de assisti-la nos Jogos Paralímpicos, baixe o guia a seguir clicando no link Rio 2016. Guia do espectador - Tenis em Cadeira de Rodas
Fonte: Rio 2016

Jovem com Down é o empreendedor mais novo de sua cidade

by Ricardo Shimosakai
Blake Pyron assim que ele decidiu que queria abrir um truck de raspadinhas, a cidade de Sanger se mobilizouBlake Pyron: assim que ele decidiu que queria abrir um truck de raspadinhas, a cidade de Sanger se mobilizou
A pequena cidade de Sanger, no Texas, tem cerca de sete mil habitantes. Em maio deste ano, muitos deles se deslocaram para celebrar um novo negócio: o Blake’s Snow Shack, que comercializa raspadinhas.
Porém, procurar um refresco perfeito para os dias quentes não é o único motivo da visita em massa. O líder do empreendimento, Blake Pyron, tornou-se o empreendedormais jovem da cidade, com 20 anos de idade. Além disso, também é o único dono de negócio com Síndrome de Down em toda a cidade.
História
Quando Blake nasceu, sua mãe ouviu algo que muitas mães de filhos com Síndrome de Down costumam ouvir: que ele não poderia fazer coisas que as outras crianças faziam, como andar e falar.
“Quando você recebe uma criança com necessidades especiais, a sociedade fala para não esperar muito dela”, conta Mary Ann Pyron à rede televisiva ABC e ao programa The Texas Bucket List. “Nós decidimos ir além, dizendo para nós mesmos que tudo ficaria bem e que Blake ficaria bem. Que nós iríamos nos assegurar disso.”
Blake levava uma vida comum: cursava o colegial e trabalhava em um restaurante de churrasco. Sua inspiração empreendedora surgiu pouco após se graduar no ensino médio - um mês depois de pegar seu diploma, o local onde trabalhava fechou.
“Ele sentia muita falta dos clientes que atendia e queria um trabalho”, continua a mãe de Blake. “Em nossa pequena cidade, os trabalhos são limitados – especialmente para pessoas com necessidades especiais.”
Então, a família Pyron começou a pensar nas coisas que mais interessavam ao jovem e chegou a uma ideia de negócio: raspadinhas. “Blake ama raspadinhas, então ele simplesmente apostou nisso”, diz Mary Ann.
Empreendedorismo e superação
Em maio deste ano, a ideia finalmente saiu do papel: o Blake’s Snow Shack, como é conhecido o truck de raspadinhas, foi inaugurado. Além de dono, a principal função de Blake no negócio é cuidar do atendimento ao cliente – seu ponto forte, segundo a mãe. Mesmo que conte com ajuda ao fazer as raspadinhas, o jovem é quem as entrega para os clientes, sempre com um sorriso.
Assim que Blake decidiu que queria abrir um truck de raspadinhas, a cidade de Sanger se mobilizou. Seu irmão criou opções de sabores divertidas, como “ataque dos tubarões” (azul) e “Hulk” (verde). Um amigo da família, de 15 anos de idade, foi contratado para ser um dos funcionários de Blake. Em maio, a cidade como um todo foi celebrar a abertura do Blake’s Snow Shack (veja as fotos no álbum do negócio).
Para a mãe de Blake, o filho conseguiu tudo isso justamente porque os conselhos recebidos assim que ele nasceu foram ignorados. “Você não nos conhece, e não conhece nosso filho. Então, não coloque uma etiqueta nele. Nós não colocamos, e ele se saiu muito bem.”
Mary Ann também espera que sua história inspire as mães de outras crianças com necessidades especiais a nunca colocar limites no que seus filhos podem fazer. “Eu quero pessoalmente desafiar essas mães a acreditarem nas suas crianças - não ligue para o que a sociedade lhe diz.”
Fonte: Exame

Comunidades de afeto e o longeviver

Escrito por  Vera Brandão (*)
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comunidades-de-afeto-e-o-longeviver-fotodestaqueA realidade indica que a família, comunidade de afeto tradicional, não pode sozinha dar conta da complexidade de viver, envelhecer e longeviver, e novos espaços de afetividade e convívio devem ser estabelecidos. Muitas são as possibilidades e, naturalmente, todas apresentam aspectos positivos e negativos. Portanto, múltiplos espaços são necessários para que os idosos e suas famílias possam reconstruir-se solidariamente. Elencamos os grupos de convivência e as universidades abertas, os de voluntariado, leigos ou religiosos; as pastorais; os de práticas desportivas, entre outras possibilidades. 
As reflexões que aqui apresentamos brevemente resultam do processo de estudos e pesquisas na área da Gerontologia Social, do qual resultaram trabalhos apresentados em congressos, seminários, na elaboração de capítulo de livro, e como tema da aula inaugural da Universidade Aberta à Maturidade da PUC-SP, realizada em 01/08/ 2016.
Partimos da constatação que longevidade é um fato biológico e cultural - marca o século XXI - que se apresenta como progresso e, como tal, traz muitos desafios. A velocidade das transformações dos modos de viver na modernidade impacta em especial o segmento mais velho da população mundial que nasceu, cresceu e viveu parte considerável de suas trajetórias em comunidades mais estáveis, especialmente no Brasil.
Na Europa, as consequências da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945) trouxe mudanças importantes nos modos de vida, impostas pelos conflitos, gerando deslocamentos, mortes, fome, desagregação e degradação das relações. Alguns conseguiram recompor, ao menos minimamente, os grupos de referência afetiva, outros não. A população idosa que vive hoje nos países afetados pelo conflito, que se reergueram e progrediram, conta hoje com uma estrutura social de atendimento mais equilibrada, porém as marcas dessas sofridas experiências ficaram fortemente gravadas, e se agudizam na velhice avançada, especialmente entre os nonagenários e centenários.
O Brasil, com seus graves problemas estruturais, não enfrentou uma guerra, mas convive, desde sempre, com um desgaste cotidiano que só se acentua, mesmo com o progresso em algumas regiões do país. As mudanças na estrutura familiar foram, ao longo do tempo, acrescentando sofrimentos maiores àqueles inerentes à fragilização física e emocional imposta pelo passar do tempo.
Acreditamos, esta é uma realidade que pode ser parcialmente enfrentada com a revitalização das comunidades de afeto muitas vezes esgarçadas, mas não totalmente rompidas, com abertura de novos espaços, nos quais com micro ações de solidariedade todos podem se reencontrar e refazer laços. 
Mas, como se define o que é comunidade?
O termo, do latim comunitas, está associado à experiência de grupos de pessoas que convivem e partilham espaços geográficos, língua e cultura, e/ou comungam ideias e ideais, e podem conectar-se em maior ou menor grau com os princípios e a dinâmica da sociedade ampla. Ele carrega um significado positivo e exprime a noção de aconchego, proteção e harmonia, como se houvesse um entendimento compartilhado por todos excluindo, idealmente, desacordos e desavenças.
Devemos ressaltar que essa relação não é natural, e deve ser construída por seus membros, com acordos internos resultantes de negociações e persuasão, sempre sujeitos à reflexão e à contestação, pactos a serem periodicamente renovados na busca de um entendimento comum sempre vigilante, pois disputas internas e externas ocorrerão com frequência, ameaçando a esperada estabilidade. 
Não poderia ser esta uma consideração importante para repensar e repactuar as relações nas tradicionais comunidades de afeto ‘esgarçadas’, especialmente as famílias? Os pactos tradicionais não poderiam ser revistos e refeitos, com novo acordo intergeracional, mais amplo e flexível?
Vivemos hoje uma sociedade plural e hiperconectada na qual convivem muitas comunidades e gerações que se interligam nos espaços de trocas, com leis e normas que se sobrepõem e/ou complementam.  
Estudando a evolução humana, tanto do ponto de vista biológico como social, verificamos que seu ponto de partida foi um sentimento compassivo, de ajuda mútua, que evoluiu para a gradual organização com regras, dispositivos normativos e leis, cada vez mais complexas que passaram a reger essa convivência comum – em sociedade e/ou comunidade - associações humanas que se articulam formando o que denominamos ‘nosso mundo’. 
Essa organização trouxe progressos em várias áreas, que hoje não estão orientados para o bem comum e o desenvolvimento humano sustentável e integral, afastando-se dos sentimentos de solidariedade e ajuda mútua, em direção a seu contrário: exclusão, preconceito, injustiça, “um mundo sem coração” (Lasch,1991).
Verificamos, assim, que constituímos e fomos constituídos, cotidianamente, em comunidades de afetos. Vivemos hoje em uma sociedade em redes e devemos incentivar e fortalecer as diferentes comunidades de pertencimento, pessoais e virtuais, das quais todos fazem parte. Na maturidade é fundamental valorizar as comunidades afetivas já construídas e buscar novas conexões na perspectiva de um longeviver compartilhado e integrado. 
É no seio das comunidades de pertencimento - família, escola, igrejas de diferentes credos, ou grupos de convivência espirituais ou sociais, de amigos ou colegas de trabalho – que vivemos as experiências que nos marcam, e nas quais os afetos vão se constituindo de modo único para cada um, e os resultados desses processos serão expressos em pensamentos-guias de atos e atitudes. As experiências do passado são revividas no presente - a sociedade hipermoderna - compostas por diferentes grupos e camadas etárias que viveram e vivem outras experiências, construíram visões de mundo diversas, que não se excluem e podem incorporar mudanças e novos modos de viver socialmente. Seriam as memórias de fatos e emoções vividas as matrizes dos afetos? Se assim for, como por meio delas resgatar as comunidades afetivas?
A solidariedade e a empatia são sentimentos valiosos ao longo da vida, mas se tornam imprescindíveis na longevidade quando as possibilidades econômicas, físicas, psicológicas e existenciais se fragilizam e os grupos de convivência próximos podem mostrar-se como únicos pontos de apoio. Neste período a família, mesmo que estável e receptiva, não preenche todas as necessidades dos idosos, e os grupos de convivência em senso amplo permitem a saudável expressão de outras faces da identidade múltipla que nos constitui. Os momentos de fragilização maior são aqueles nos quais as comunidades de afetos se mostram mais relevantes e “a misericórdia torna-se [...] elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens, em espírito do mais profundo respeito por aquilo que é humano e pela fraternidade recíproca” (Papa Francisco, 2015). 
A manutenção dos vínculos comunitários afetivos nesse período é um dos muitos desafios da longevidade na sociedade atual, mas podemos superá-los tendo como horizonte a solidariedade pela empatia, compaixão e misericórdia como “a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida” (Papa Francisco, 2015).
A realidade indica que a família, comunidade de afeto tradicional, não pode sozinha dar conta da complexidade de viver, envelhecer e longeviver, e novos espaços de afetividade e convívio devem ser estabelecidos. Muitas são as possibilidades e, naturalmente, todas apresentam aspectos positivos e negativos. Portanto, múltiplos espaços são necessários para que os idosos e suas famílias possam reconstruir-se solidariamente.
Dentre os quais, para aqueles que se sentem ainda dispostos e com saúde equilibrada, elencamos os grupos de convivência e as universidades abertas – com ampla possibilidade de escolha entre as atividades propostas - os de voluntariado, leigos ou religiosos; as pastorais propostas pelas igrejas; os de práticas desportivas, entre outras possibilidades. Para aqueles com maior grau de fragilidade existem os centros-dia, espaços de acolhida para suporte físico, emocional e de lazer, que auxiliam a manutenção da convivência familiar em parte do dia. 
Algumas experiências de moradias partilhadas estão sendo realizadas em diferentes países impulsionadas pela longevidade humana: “repúblicas”, nas quais cada um tem seu quarto com sala e cozinha comuns, contando, às vezes, com um profissional de apoio; pequenas “vilas” de casas independentes, mas com infraestrutura de serviços de apoio; flats nos quais um indivíduo ou casal mora só, mas com serviços de hotelaria e outros; um idoso que oferece sua casa para partilha, com uma ou mais pessoas, dividindo despesas e afastando a solidão, além da reativação das comunidades de vizinhança. Todas essas ‘novas’ modalidades têm seus benefícios e problemas, já que é muito difícil a convivência cotidiana, mas com potencial de reconstrução de espaços afetivos. 
As comunidades de afetos estão dentro de nós, vivas na memória, e que podem ser resgatadas por todos na perspectiva de uma vida mais solidária. Para nos abrirmos para novas possibilidades podemos questionar: Quais são os afetos que nos habitam? Como foram construídos? O que deles resta? Exercício nada fácil, mas fundamental, pois sem esse olhar interno, como podemos ver o outro? Se não me reconheço, como (re) conhecer o outro? Como realizar essa tarefa cotidianamente?
A solidariedade tem como premissa a empatia – colocar-se no lugar do outro - e a compaixão - sentimento que nos impele a evitar o sofrimento do outro e a ação de proteção - guias no caminho da misericórdia. Manter ou criar comunidades de afetos é a tarefa que se impõe no momento atual, e semente de uma mudança de perspectiva no que se considera a vida na longevidade.
Leia mais
LASCH, C. Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
MAGALHÃES SILVA, D. Comunidades de Vizinhança em Portugal e na França: lidando com o isolamento social e a solidão dos idosos. REVISTA PORTAL de Divulgação, n.49, Ano VI, Jun. Jul. Ago. 2016, ISSN 2178-3454. www.portaldoenvelhecimento.com/revista-nova 
SS PAPA FRANCISCO. Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 2015
(*)Vera Brandão - Pós doutora em Gerontologia Social PUC/SP. Mestre e Doutora em Ciências Sociais – Antropologia PUC/SP. Pedagoga USP. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – NEPE - e do Núcleo Longevidade, Envelhecimento e Comunicação – LEC – do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia PUC/SP. Editora da Revista Portal de Divulgação do Portal do Envelhecimento. E-mail: veratordinobrandao@hotmail.com - Site: http://portaldoenvelhecimento.org.br 
Fonte: http://www.portaldoenvelhecimento.com/comportamentos/item/4143-comunidades-de-afeto-e-o-longeviver
Oferecemos arquivo de textos específicos, de documentos, leis, informativos, notícias, cursos de nossa região (Americana), além de publicarmos entrevistas feitas para sensibilizar e divulgar suas ações eficientes em sua realidade. Também disponibilizamos os textos pesquisados para informar/prevenir sobre crescente qualidade de vida. Buscamos evidenciar assim pessoas que podem ser eficientes, mesmo que diferentes ou com algum tipo de mobilidade reduzida e/ou deficiência, procurando informar cada vez mais todos para incluírem todos.