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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Caso Real: METADE BATOM, METADE BIGODE

   Sou Maria Elisa, tenho 47 anos, há três perdi meu parceiro, pai amoroso de meu único filho Samuel, hoje com quinze anos.Um pai faz muita falta. Há dois anos perdi meu sogro, faz um ano minha sogra. Todos eram muito importantes para me ajudar a cuidar de meu moço e a tocar a vida, hoje muito corrida, pois sozinha preciso cuidar das minhas atribuições , mais todas as providências que eram do pai.Eu me sinto metade batom, e metade bigode. Fico muito preocupada em imaginar até quando serei eficiente e estarei presente na vida de Samuel Os parentes moram longe.Nunca tive problemas com minha pressão arterial, nem antes e nem depois do parto. Mas quis o destino que ela se alterasse no sétimo mês de gravidez,tive eclampsia.Meu nenê, nasceu com 34 centímetros e um quilo e seiscentas gramas, ficou um mês hospitalizado, com muita dificuldade para ganhar peso.Com um ano e meio foi avaliado pela APAE e constatamos paralisia cerebral, no seu caso uma diplegia, comprometendo os membros inferiores.Foram várias cirurgias, buscando mobilidade mínima para poder usar um andador, até chegarmos à dolorosa conclusão médica, aos seus treze anos, que seria para sempre cadeirante.Nosso sistema de seguridade nega que Samuel tenha direito a beneficio próprio, dada nossa renda per capita (pensão de meu marido). Precisa de mim para toda a higiene e cuidados pessoais.Não pode freqüentar a escola regular Passa suas tardes na APAE, e sinto muita falta em nossa cidade de espaços inclusivos para suas manhãs, oportunidades diferentes de desenvolvimento para ginástica adaptada, esportes, teatro, algo que enriquecesse seu convívio com outras pessoas.Mas vamos viver! “A melhor coisa sobre o futuro é que vem só um dia de cada vez.” – Abraham Lincoln.


Caso real.Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e Diretora da Unidade de atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência

Caso Real: LAYOUT E ARTE FINAL

   Sou Selma, tenho trinta e cinco anos.Aos vinte , engravidei sem ter planejado, e o pai de Gabriel não criou vínculo afetivo. Nasceu com oito meses de parto normal, com má formação óssea na base de seu crânio, incapaz de proteger o tecido neural, projetado para fora de seu lugar.Estava arroxeado, não chorou, tinha dificuldade para respirar. Colocaram em oxigenação, em poucas horas fizeram a cirurgia, sem prévio exame, a situação era de vida ou morte (Encefalocele). Tivemos sorte, a cirurgia foi bem conduzida.Havia risco de vida vegetativa.Encontrei novo parceiro, casamos,ele registrou Gabriel como seu filho. Hoje ele tem quatorze anos, pagou o preço que a doença cobra do sistema músculo esquelético – precisa se apoiar nas paredes para andar.Está terminando o primeiro grau , em duas tardes de APAE faz fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicomotricidade, apoio pedagógico e psicológico. Acham que há possibilidade de inclusão no mercado de trabalho, mesmo não possuindo capacidade de leitura. Ele copia, mas não lê.Usa bicicleta adaptada Liga o computador, navega pelos vídeos, faz informática, ensina a mãe a jogar no celular.É são paulino, amoroso, inteligente, adolescente contestador. Estou estudando Pedagogia, quero trabalhar na área, quero tentar sua alfabetização.Quero ensinar simpatia, gosto em ajudar todos do grupo, alegria de ser útil em sua possibilidade.Quero preparar seu futuro,tenho irmã que é sua segunda mãe , mas ele precisa conquistar toda sua família.Acabo de me separar de meu marido. É definitivo. Triste, ele afastou-se de mim e de Gabriel.Vamos enfrentar mais este desafio.Sei que “A verdade é que a gente não faz filhos.Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte final.” –Luis Fernando Veríssimo.


Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Caso Real: FAÇO TUDO O QUE TODO MUNDO FAZ

Mas podia ser mais fácil.Se as pessoas fossem mais discretas, ao invés de falar com espanto “nossa, voçê é cega?!”.

Fico constrangida , principalmente se estou acompanhada. Surge espanto também quando informo que namoro há cinco anos, pessoa sem deficiência.Não foi meu primeiro namorado, tenho 22 anos.Parece que as pessoas acham que não enxergar faz a pessoa não ser atraente em qualquer sentido, inclusive no sexual.

No balcão de lanchonete, quando acompanhada, sempre perguntam para quem esta ao meu lado o que quero comer!Sempre fui boa aluna, com boas notas. Aprendi a ler antes de entrar na pré-escola, minha família sempre me estimulou muito.

No ensino básico tive quatro grandes amigos, que a cada ano sentaram ao meu lado repetindo tudo o que estava escrito na lousa para eu copiar em caderno comum, conseguia ver as linhas desde que tivessem bom contraste.

Nasci com amaurose congênita, o que me dá visão subnormal de 20%. Apesar de ser boa aluna,no ensino médio, grupo de estudos reclamou com a professora que “a Fernanda sempre sobrava para eles.” Detalhe: a “sobra” fazia a parte dela e não raras vezes a dos outros também, com facilidade.

Recentemente prestei concurso público, para ser professora de escola estadual.Aprovada, escola escolhida, faço curso para ingressantes, antes da admissão .

Tenho insônia quando penso que passarei por perícia médica, e que posso ser considerada inapta por ser deficiente visual.Já dei aulas no Estado como professora temporária, com competência,  meus alunos gostavam de mim.

Eleanor Roosevelt falou que “O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seu sonhos.”Eu acredito na beleza dos meus.Vocês poderiam, por favor, acreditar também?

Tenho contas a pagar e projetos de vida.

Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

NÃO É FINAL, MAS É FELIZ

Pela terceira vez conto parte de minha história para vocês. Relembrando, na primeira, já sem a visão e em benefício, não me conformava em não trabalhar e busquei qualificação profissional em curso gratuito de informática e telemarketing, parceria SENAI e UADPD. Eu não sabia entrar em internet, tinha pavor de vírus virtuais, e aprendi a usar EXCELL e WORD. Uma libertação que me deu condições de solicitar volta a meu antigo trabalho, em nova função de telefonista. Novo problema surgiu, a empresa não dispunha de leitor de tela e novamente fui ajudada pela UADPD a conseguir o programa leitor para deficientes visuais Virtual Vision, pelo Banco Santander.Lutei  para voltar a trabalhar em setor da empresa que já conhecia antes de minha deficiência visual se instalar em definitivo (retinose pigmentar). A memória do trajeto, garantia mais segurança. Hoje ainda vejo vultos.Faz um ano que estou nesta nova função, contra a vontade de meu ex-espôso e de minha família, que acham mais seguro eu me aposentar e ficar em casa. Mas gosto de gente, de novas idéias, gosto de trabalhar – ainda tenho funcionais a voz, os braços, as pernas e ótima memória.Mas há meses passados, caí de forma séria em uma calçada, sua reforma encheu de pedras e areia o que era livre na véspera, trinquei tornozelo, polegar, a bengala entortou, escutava risos dos passantes.Quando consegui chegar ao ponto do ônibus, chorei muito.Tive depressão importante, mas o psiquiatra acha que eu só adiei a tristeza pela cegueira, não podia me entregar a ela quando meu filhinho tinha só quatro anos.Já sarei da depressão, e hoje com sete anos ele disse para a professora que eu não enxergo, ando com bengala, mas sou boa mãe.Meu momento atual não é final, mas sem dúvida é feliz!


Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Caso Real: A LUZ, A SOMBRA DE DEUS

Esperava para me apresentar em concurso de calouros. O prêmio era uma cesta básica, precisava muito. Outra dupla ensaiava, ele não conseguia acompanhar direito a moça. Ofereci meu acompanhamento, em ensaio, ela cantou e o dono do programa de radio passou neste momento por nós. Gostou, ela levou a cesta e eu um espaço para abrir o programa com minha música nordestina.Foi a melhor oportunidade que tive na vida. “As pessoas começaram a chamar meu” Trio Virgulino” para as festa e reuniões, e acabei tocando até nos Estados Unidos, França, Espanha, Portugal, Inglaterra, Itália e Suíça. Este sempre foi meu trabalho ,  e em trinta e dois anos,com seus frutos, já ajudei três filhos à ter sua casa própria ,quando casaram. Hoje tenho cinqüenta e quatro anos e  uma filha solteira. Meus filhos formaram sua própria banda musical Como eu, aprenderam a tocar de ouvido e também já são profissionais na área.Somente quando eu tinha trinta e oito anos é que tive acesso a atendimento para pessoa com baixa visão,  no CPC. Com lupa especial adaptada à tela de computador, pela primeira vez pude estudar, fiz supletivo, cheguei à sexta série.  Nasci com catarata congênita, em Parnamirim, à quinhentos e cinqüenta quilômetros do Recife. Tinha um por cento de visão. Comecei a tocar gaitinha com cinco anos, cavaquinho com oito, e quando me deram um acordeom saí tocando.Tocava nas festas, e as moças se aproximavam.Uma delas, cada dia mais, até dar em namoro.Casamos, e com vinte e dois anos eu estava em São Paulo, em busca de cirurgia para minha vista.Consegui bom resultado, passei à ter dez por cento de acuidade visual, podia agora enxergar os postes, andar na rua com autonomia.Mais luz! Mas, como disse Einstein “A luz...é a sombra de Deus...”


Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com deficiência.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Caso Real: UMA OPORTUNIDADE : QUERO, PRECISO E MEREÇO!

Estou empregado em firma sólida, bons benefícios, ótimo transporte. Gosto do trabalho, mas percebo que a maioria de meus colegas não sabe que sou pessoa com deficiência . Só alguém mais observador percebe. Aos 21 anos fui atropelado, o motorista não prestou socorro, o atendimento emergencial foi precário, a platina colocada no fêmur não foi bem adaptada, feriu a conexão com o quadril e desenvolvi artrose.  Agora, com 39 anos, trabalho em área de produção e preciso reordenar peças extremamente pesadas, com parceiro menos alto do que eu. No final do dia sinto muita dor. Sei que preciso evitar ao máximo analgésicos e antiinflamatórios. A piora de meu quadro pode acontecer se eu insistir em deslocar ou carregar peso além do que posso suportar. No futuro posso precisar de prótese de quadril.Ela pode durar de dez a vinte anos. Só é possível uma troca em vida. No fim desta história pode acontecer cadeira de rodas.Preciso fazer com que meus chefes no trabalho percebam que minha luta é a da preservação da saúde, quero continuar trabalhando aqui mesmo, mas talvez a solução esteja em outro setor da fábrica, e não sei ainda se nestas circunstancias seria possível solicitar esta mudança. Vou buscar ajuda médica, que comprove meu limite de saúde, e procurar usar outras habilidades. Fiz curso por correspondência de mecânica de motos, cursos presenciais de informática básica,hardware vendas, web design, Elétrica e Mecânica do SENAI (sou eletricista nas horas de folga), e Inspetor de Qualidade. Sonho com faculdade de Engenharia Elétrica ou Gestão de Pessoas. Lembrete amigo: pessoas com deficiência querem, na maioria precisam e merecem uma oportunidade!



Caso Real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Caso Real: AOS DEZOITO ANOS, A LUZ DO CONHECIMENTO

Gosto do pensamento:”Diversos não são os outros, diversos somos todos nós”, de Reinaldo Bulgarelli, um educador nosso, que atua na área social.Procuro mostrar esta realidade para meus alunos deficientes visuais.Sou professora com pós-graduação em educação especial, concursada, trabalho em duas escolas públicas. Quero ampliar a autonomia destas crianças, às vezes seus pais não estão preparados ainda para lidar com a deficiência de seu filho, tropeçam em preconceitos, ou ficam paralisados por medos infundados e superprotegem atrapalhando o crescimento em todos os sentidos Exponho meus alunos ao máximo convívio possível com as demais crianças, para construir uma inclusão real.
    Quando cheguei a este ponto de minha vida, me sentia “a mais feliz das pessoas que Deus colocou no mundo!” Tinha um trabalho para me sustentar!Sofri em dois vestibulares, lutei muito por bolsa de estudos.Fiz Pedagogia em quatro anos regulares, mas graças à dedicação minha em tempo integral, e a de colegas muito solidários.Para prestar concurso público estudei dias e noites com a ajuda de voluntários leitores .Passei com boa colocação.
    Porque conto tudo isto? Porque só com dezoito anos , deficiente visual desde que nasci, cheguei a uma cidade com escola que poderia me alfabetizar, ensinando Braille.Foi minha primeira escola na vida.Foi então também que cheguei à Associação de Cegos e aprendi a andar sozinha por toda a parte, além de aprender natação, corrida, arremesso de peso, dardo e disco, competindo por dois estados brasileiros.  Meu nome é Luzia Aparecida, hoje tenho quarenta e quatro anos.



Caso real.Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.


Caso Real: MAMADEIRAS À VISTA!

   Sou Carla, tenho vinte e sete anos, e um bem-vindo bebê em formação dentro de mim.Meu marido acaba de perder seu emprego de anos (e o convênio médico) pelo momento financeiro que vivemos no mundo. Mas Deus proverá! Em janeiro de 2011 estava em um culto religioso, e o lado esquerdo de meu rosto se contorceu sem meu comando, meus joelhos “amoleceram”, a coordenação sumiu, caí no chão.Por grande sorte o socorro foi muito rápido.A segurança do atendimento médico de um acidente vascular cerebral é de no máximo três horas . Mesmo assim perdi cinqüenta por cento do campo visual de meu olho esquerdo, ficou muito difícil abaixar e levantar, o equilíbrio falha, e a movimentação da mão e pé esquerdos ficou limitada.Levei um bom tempo para aprender a conviver em paz com minha bexiga.Meu AVC é resultado de defeito congênito.Faço muita hidroterapia e fisioterapia. Vou precisar da ajuda de uma terapeuta ocupacional para estar preparada para cuidar bem de meu bebê. Tive ajuda psicológica, conto com marido super parceiro, e mesmo assim precisamos reinventar nossa relação para o casal que somos prevalecer. A confirmação de tudo isto é o nosso bebê, tão inesperado, um presente de Deus em nossa vida!
   Eu era uma eficiente vendedora de sapataria, sabia encontrar tamanhos difíceis para clientes agradecidos pelo meu esforço. Pretendo usar esta experiência em trabalho futuro.
   Luto para cozinhar, já consegui fazer arroz, e o dia em que desenformei um pudim foi uma felicidade só! Agora soube que um anjo da guarda vai providenciar a adaptação de meu fogão, instalando um pedal industrial ao acendedor, para que eu possa acionar sozinha, com minha mão e pé do lado direito preservado. Vou precisar aquecer muitas mamadeiras!


Caso real. Elizabeth Fritzsons da silva, psicóloga e diretora da Unidade de atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.



Caso Real: MESMO DEFICIENTE, SOBREVIVÍ!

   Nasci no Sergipe. Tenho cinqüenta e um anos. Tive poliomielite com cinco anos, apesar de vacinada. Tenho uma perna mais curta, com um pé menor, ando mancando. Costurava vestidos, em uma velha máquina de casa, aos oito anos. Aos doze já produzia camisas e calças. Com esta idade moço da vizinhança, de vinte e quatro anos, quis me namorar.
   O casamento, aos dezessete anos, tinha a mais sabor de ter minha casa própria, do que dividir a vida com meu amor. Viemos para São Paulo, e sempre trabalhei muito, como costureira em confecção, sem registro, ganhando muito bem, e cuidando de tudo na casa, mais os filhos. Ele trabalhava, mas nunca me ajudou em nada em casa, e não admitia que eu deixasse de trabalhar fora de casa, além de não poder gastar com nada pessoal.
   A relação foi se desgastando, pedi a separação, sempre negada. Insisti e ele me esfaqueou por sete vezes. Não sei até hoje como consegui escapar. Atingiu minha testa, meus braços, o abdômen. Ele fugiu do flagrante, ficou seis meses em outra cidade, não recebi amparo legal nenhum, os policiais disseram que eu devia “entender ele”. Finalmente definiu que se eu retirasse a queixa registrada, ele sairia de casa.
   Tenho dois filhos casados, e dois em casa, não quis pensão. E agora comecei a sentir muito cansaço, falta de ar, fraqueza mesmo, dor nas juntas – fui informada de que posso estar sofrendo efeito tardio da pólio (Síndrome Pós-Polio), que pode acontecer de trinta a quarenta anos após a infecção.
   Passei tantos anos lutando por sobrevivência e nunca busquei ajuda médica, contribui com o INSS ou fiz algum convênio. Simplesmente não pude perceber que era pessoa com deficiência, com o direito de ser atendida e entendida.


Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Caso real: MOTO? TÔ CORRENDO!

Sou Ivan, tenho vinte e cinco anos. Trabalhei como mecânico. Sempre sem registro, Também como garçom e estampador de camisetas. Numa madrugada, dirigia a moto com minha mãe na garupa, descia por uma avenida e precisei dividir o espaço com duas caçambas seguidas e carro ao meu lado. Ele encostou em meu guidão, bati na quina de uma das caçambas, quebrei meu fêmur em quatro partes, estourei o joelho, o tanque de combustível da moto se partiu ao meio com a força do impacto Minha mãe lesou com tal gravidade a coluna quando caiu que precisou colocar seis pinos , além da placa de platina em sua perna, abaixo do joelho.O motorista não nos socorreu.
   Lembro de meses no hospital, com gaiolas de aço em volta de minha perna, fumando quatro maços de cigarro por dia, apesar dos antidepressivos. Passei por cinco cirurgias, no dia em que iam amputar minha perna, quebrei tudo o que havia à minha volta e briguei e gritei tanto que decidiram me dar um tempo. Fiquei por três meses em cadeira de rodas e andei por um ano e dois meses com muletas. Depois usei andador.
   Agora faz um mês que “ando”, mancando muito, a perna ficou mais curta, com cicatriz funda na coxa toda, o joelho é rígido, o pé não funciona como antes, e a perna “adormece” sempre. Acho que a irrigação sanguínea ficou parcialmente comprometida. Hoje ando, mas sem equilíbrio, não posso correr, não consigo subir em um ônibus.
   Quero trabalhar. Fui orientado a buscar esporte, para preservar a força do tronco e braços, importante para meu futuro, já que sobrecarrego minha perna boa e com o tempo isto vai ter um custo para minha mobilidade. Sou bom em Matemática, estou pensando em voltar à estudar, ”O que não provoca a minha morte faz com que eu fique mais forte.” – Nietzsche.

Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de atenção às Pessoas com Deficiência.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MINHAS GÊMEAS, MINHA VOLTA Á VIDA. Caso Real

Recebo elogios no trabalho, pela produção e agilidade, mesmo só podendo usar o braço direito. Já operei máquina de malharia, já fui auxiliar de escritório.

Estou empregado, mas busco melhor oportunidade. Faz cinco anos que sofri acidente de moto, voltava sozinho, de um encontro com amigos, tinha bebido um pouco, insisti em voltar apesar de muito cansado e dormi na pista, dirigindo.

Acordei já no chão, com o braço direito quebrado pelo guard-rail. Um anjo passava neste instante, parou seu carro e me retirou da pista. Desmaiei. No hospital colocaram pino em meu braço, mas o impacto gerou uma lesão plexo-braquial. Trata-se de grave disfunção do membro superior, capaz de comprometer os movimentos de ombro, cotovelo e mão, por rompimento ou estiramento.

É com muitas dificuldades que faço tratamento até hoje. Existem raros especialistas na área, e sei que meu braço nunca mais poderá funcionar como antes. Minha volta ao mundo “normal” aconteceu de forma muito lenta, com muita dor, com muitas tentativas de tratamento, com a esperada depressão a ser vencida e apoio psicológico.

Hoje tenho vinte e sete anos, ensino médio completo, quero e preciso muito trabalhar, tenho duas filhinhas gêmeas de dez meses. Penso que precisamos de mais oportunidades de trabalho para as pessoas com deficiência, e acesso mais fácil a médicos especialistas.

Lesões como a que sofri precisam de atendimento precoce, idealmente até um ano após o acidente, pois a resposta seria maior e disfunção menor. Minha força de vida retornou quando tive minhas meninas. Com elas tive a graça de perceber que “Escapamos da morte quantas vezes for preciso, mas da vida nunca nos livraremos” – Chico Xavier.


Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, Psicóloga – Diretora da Unidade de Atenção  aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

PRATICO CORRIDA E NATAÇÃO.NO ESCURO - Caso Real

Tenho trinta e três anos, meu nome é Anderson. Hoje estou em uma pista de atletismo, correndo. Dependo de parceiro, orientando os meus passos e respeitando o meu ritmo. A falta de visão não me impede de correr e de nadar, como paratleta de Americana.


  Já cuidei de gado, já fui pedreiro, já fui motorista profissional. Aos vinte e um anos tive sério desentendimento com minha seguradora, após roubo de meu carro, fiquei muito tenso e penso que este fato precipitou o aparecimento de fragilidade vascular em meus olhos, que aguardava momento propício para se manifestar (doença de Von Hippel-Lindau, hereditária e mais freqüente nos homens). Minha retina se descolou e em poucos dias a visão se foi. Fiquei recluso dois anos em casa, sem enxergar me sentia inútil no mundo.

Começar a tocar violão me fez voltar à vida. Sete anos depois, forte dor de cabeça indicou tumor vascular, na região do cerebelo, também manifestação da doença. Operei e fiquei ótimo. Sorte contar com parceira, que ficou firme ao meu lado. Sou aposentado há quatro anos, e sempre busquei o esporte como atividade.


 Mas por mais boa vontade que o paratleta tenha, ele esbarra em falta de patrocínio. Tenho um grande amigo que me ajuda, quando preciso muito. Paratletas podem levar anos para conseguir apoio financeiro, e os suplementos alimentares e equipamentos específicos de que necessito para competir são caros. Uso computador, com o leitor de tela JAWS.

Acho que poderia me esforçar mais para usar o Braille, tenho o segundo grau. Minha filhinha de cinco anos pega a minha mão e desliza na foto do celular, para que eu “veja”. Gosto de minha vida. Penso que “Existem pessoas com deficiência muito mais eficientes do que muita gente.”

Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

NA MINHA GARRA, EM MEUS MÚSCULOS, A LIBERDADE! Caso Real

Meu nome é Bartolomeu, tenho vinte e três anos. Até dezoito anos e meio vivi sem deficiência. Fui criado por mãe carinhosa, mas bem rígida, procurando compensar a ausência do pai, desde que era pequeno. Apenas pagou a pensão.



Sempre trabalhei em mecânicas, aos quatorze anos já tinha um carro meu, e quando aconteceu meu acidente era moto-boy. Aceito o que me aconteceu, pois estava trabalhando, mas no lugar errado da rua, quando o motorista ao meu lado virou sem dar a seta.

A primeira pancada foi num banco de cimento, de costas, lesando minha coluna vertebral em quatro lugares. Enfrentei o estado de coma por quarenta dias, hemorragia interna, fraturas em braço, dedos e clavícula. Passei por oito cirurgias, fiquei trinta dias em UTI.

Ainda não tinha carta quando me acidentei, ela chegou pelo correio em minha casa dois dias depois. Oito meses após ainda era dependente total, até para comer. Perdi também quatro dentes, e quinze quilos. Cento e quarenta dias bastaram para eu assinar termo de responsabilidade e sair do hospital, com oito pinos e duas placas na coluna, hérnia de disco e próteses.

Em casa ficava deitado duas horas em cada posição, usando morfina. Lutei para conseguir sentar. Cheguei ao Hospital Sarah, especializado em recuperação, já sabendo tomar banho e me trocar. Nadei mesmo assim durante dois anos, como paratleta.

Hoje treino em cadeira especial para correr (speed), em que acrescentei uma roda para melhor desempenho. Sou atleta profissional federado. Tenho o ensino médio, trabalho em firma que acessora eventos com som, luz e imagem. Adaptei pessoalmente meu carro, que dirijo.

Quero ser pai, quero ser reconhecido como paratleta de excelência. Nada menos do que isto. Quero!

Caso real. Elizabeth Fritzsons da Silva. Psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Caso alguma pessoa com deficiência se interesse por esporte e atletismo favor procurar pelo Marcio (treinador) na Secretaria de Esporte de Americana






segunda-feira, 16 de julho de 2012

SOU DIFERENTE, MAS SOU EFICIENTE

Sou Adriana. Esperando a saída de meu caçula da escola presenciei discussão de pontos de vista diferentes entre ele e o coleguinha. Este dizia “- Sua mãe não tem um braço!”, e meu filho repetia insistentemente –” Tem sim, tem sim! Tem e iai - iai!”, sem um acordo possível. Sorri e decidi não interferir.

“Iai-iai” acabou sendo o apelido de parte de meu ante braço esquerdo, que tem a forma de um cone com pequeno dedo na ponta. Ele mexia nele, a pele se rompia , sangrando, eu gemia. Virou apelido.

Em criança, minha mãe pedia para não tornar evidente a falha do braço. Como?Faço todo o serviço de casa, prego botões, e desenho flores nas unhas da mão direita, com esmalte. Tive vários namorados.

Fui babá desde os dezoito anos (sem registro). Fui passadeira cuidando dos lençóis e travesseiros de um hotel.  Depois fui camareira por seis anos. Com registro em carteira fui faxineira em escola, durante seis meses. Depois fui recepcionista em convenio de saúde durante quatro anos.

Mudança do quadro administrativo resultou em dispensa. Fui cobradora de ônibus, mas a falta de paciência das pessoas me fez desistir – era o tempo de fazer troco, não havia cartão.

Hoje trabalho em metalúrgica, no setor de produção. Sempre gostaram muito de meu trabalho. Tenho o 1º grau completo, 41 anos, muita vontade de aprender mais informática. Preciso de curso gratuito, tenho muitos compromissos financeiros. Moro sozinha com meus dois filhos e já existe um lindo netinho.

Sonho com carta de motorista. Ao avaliar uma pessoa com deficiência para uma função faça um teste com bastante tempo, carinhoso. Incluir com o devido cuidado é sadio e benéfico para empregado e empregador. “A vida é realmente simples. Nós é que insistimos em torná-la complicada.” – Confúcio.





 Elizabeth Fritzsons da Silva, Psicóloga-Diretora/ UADPD.








OBEDECER DEMAIS, RISCO DE MORTE - Caso Real

Meu nome é Wellington. Sobrevivi a acidente de transito gravíssimo pelos meus dezoito anos. Sofri em três tentativas de trabalho, por falta de registro (depois de um ano de trabalho), por falta de segurança (quase morri dentro de filtro de algodão, em produtor de sacaria, inadvertidamente ligado quando eu estava limpando) e por falta de moradia adequada no acampamento da construção. Estava a um mês no quarto emprego, esperando o registro.

Trabalhei das sete às dezessete horas, o patrão disse que ficaria como vigia a noite . Pagaria hora extra. De manhã, muito cansado peguei minha moto e o rumo de casa. Na pista de mão dupla, dormi dirigindo e bati de frente em um caminhão que conseguiu brecar e chamou o resgate. O motor da moto se partiu em dois.

Usava capacete, sem travar no pescoço. Protegeu minha cabeça quando fui ao chão, mas antes foi empurrando meu rosto, a viseira quebrando dentro de meu olho esquerdo, o restante quebrando os ossos de minha face.

Havia muito sangue, o motorista no início achou que eu já falecera. Depois de cento e noventa quilômetros de ambulância, o hospital. Fiquei um mês em coma induzido, para suportar a dor – abriram meu abdômen, para avaliar meu estado e colocaram platina na perna para a lesão do joelho. Passei três meses no hospital.

Tinha medo da cadeira de rodas. Com fisioterapia no hospital, recuperarei os movimentos. Depois do orifício em minha garganta (traqueostomia), a fonoaudióloga me ajudou a falar de novo.  Meu olho esquerdo doía muito,busquei ajuda e com uma prótese, a dor passou. Sou monocular. Quero trabalho, quero estudo, sonho com advocacia. Meu ex-patrão não pagou nada do que me devia. Luto pelos meus direitos "A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal." Machado de Assis


(Caso Real)
 Elizabeth Fritzsons da Silva. Psicóloga-Diretora/UADPD.

TÂO LONGE, DE MIM DISTANTE - Caso Real

Posso desenhar para você, usando Libras as letras de meu nome: Sandro. Sou surdo desde criança. O surdo sofre muito primeiramente com a família, quase sempre despreparada para o convívio. Não é suficiente a comunicação somente com sinais inventados em casa, no máximo apontam objetos nomeando (como água, comida, sair...).

A informação, os apelidos carinhosos, e as explicações sobre o que é o mundo não existem. Muito menos regras sociais de convivência (Por favor, Obrigado, Quer ajuda?). Comigo era tudo no tranco – apanhava para trabalhar na roça, de um pai envergonhado com a minha condição. A capacidade de se comunicar dele também não era lá essas coisas, batia muito em minha mãe. Ela, em sua ansiedade de falar comigo, escrevia. E eu fingia que conseguia ler. Todas as crianças precisam passar logo no início de suas vidas pelo teste da orelhinha.

Em caso de surdez, precisamos capacitar todos os envolvidos com sua educação em Libras, permanecendo com apoio técnico por muitos anos, usando os gestos, as expressões fisionômicas, as leituras traduzidas para Libras, os filmes e documentários. Há que informar esta criança. Para depois trabalhar a informação em regras de civilização. Meus vizinhos de roça também não me entendiam, e gozavam muito. Nunca fui à escola, mas percebia que escrever era importante, e sozinho comecei a copiar as letras e tentar juntar com o que eu sabia nomear.

Só com 18 anos tive acesso ao alfabeto. Conclui que precisava mudar alguma coisa em minha vida e fugi com amigo, surdo também, para a grande cidade, mesmo com medo da violência. Lá era possível ganhar algum dinheiro, vendendo objetos em semáforos. Com 22 anos descobri a língua de sinais, em uma igreja. Com a lei de Cotas tive a primeira oportunidade de emprego fixo – usinagem. Fiquei 1 ano e 3 meses. Casei com 29 anos, ela é surda.

Em confecção cortei tecido, durante 3 anos e meio. O salário atrasava muito, e pagar as contas só com o salário de empacotadora de minha esposa estava difícil, mudei para o atual trabalho que é ótimo, nesta nova firma quatro pessoas falam Libras! Temos filhinha de sete anos que já é a nossa tradutora, sabe Libras e nos conecta ao mundo.

Ela aprendeu o português com minha cunhada. Sentimos imensa falta de serviço profissionalmente estruturado de tradução de Libras, em todos os lugares. Na sala do convênio médico nunca sei quando estou sendo chamado. E explicar o que se sente na consulta? E entender como usar a medicação? Somente com este direito de falar e ser ouvido respeitado é que não sentirei mais o mundo “tão longe, de mim distante...”







Caso real.Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sou Guri Guerreiro

Nasci gaucho, na minha família, sempre temos dois ou três contemplados com problemas de visão em cada casa. Eu e meu irmão aprendemos Braille (ambos ainda com resíduo visual - baixa visão) na Instituição Santa Luzia, exigência para que freqüentar sem pagar, como precisávamos.


Evaldo, criador do Gira-Braille (Imagem Google)

Pessoas que enxergam costumam achar muito difícil esta linguagem, e descobrimos que seria possível numerar cada símbolo dos 64, falando em código. Era divertido falar - Esse daí é um 2-15, 2-15 (bo, bo)!

Ninguém mais entendia!. Já trabalhava com informática e jogava profissionalmente futebol de salão em time de pessoas com deficiência (era monocular), não vi a aproximação da bola que bateu neste olho com força suficiente para descolar minha retina. Evoluiu para glaucoma, fui “compulsoriamente” aposentado aos 24 anos.

Levei três anos para conseguir sair, sozinho, da minha “concha de dor”, minha esposa não aceitava minha deficiência nem a da minha primogênita. Quando aprendi a usar a bengala, a memória dos locais já freqüentados ajudou muito. Voltei à vida. Tinha uma inquietação – como, em minha condição, ainda ser útil às pessoas?

Encontrei lógica no Braille – repetição em análise combinatória. Criei uma espécie de cubo com três peças móveis capazes de girar em um eixo, que permite montar cada letra com rapidez, com pontos em relevo.

Patenteei o invento, produzi em escala e vou a todas as salas universitárias de todos os cantos do país que consigo, pedindo dez minutos ao professor para vender a idéia inclusiva e o “gira-braille” aos estudantes.

Criei renda adicional, patrimônio futuro para meus filhos e deixei o mundo dos videntes que querem ajudar os deficientes visuais muito mais fácil.  Penso que: “Na vida, tudo o que você quiser, você busca, basta acreditar e ir à luta, que você consegue.”.



Caso você se interesse em adquirir o Gira-Braille entrar em contato com Evaldo: (41) 9114-1651 (Paraná) ou sistemabraille@bol.com.br


 Caso Real.Elizabeth Fritzsons da Silva, Psicóloga-Diretora/UADPD.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Saborear Ideias: Caso Real


Meu nome é Carol. Aos cinco anos tive diagnostico hipotireoidismo, herança de família, meu pai também teve. Na época era muito difícil andar, impossível correr a obesidade decorrente da doença me incomodava muito.



O tratamento foi iniciado, mas a família já sabia que estávamos entrando no campo das doenças autoimunes. Aos dez anos comecei a sentir muita fome e sede. Em três meses emagreci treze quilos.

O medico não queria fazer o exame de glicemia, minha mãe insistiu com firmeza, e foi confirmada diabetes tipo I. mais uma doença autoimune. Espero que pare por ai. Por três anos fiz dieta e me controlava, não comia doces, via minhas amiguinhas comendo, desejava muito e chorava escondida em casa, muito também.

Daí uma medica ensinou contagem de carboidratos, voltei à comer um pouco de doces. Não sei se foi bom, porque quando você consome, volta a memória do gosto, e a gente não quer mais parar. Uso insulina em três dozes diárias. Tenho vinte e um anos. Precisaria mesurar o nível de glicose três ou quatro vezes por dia. Nem sempre controlo a glicose. Ter diabetes sempre me revoltou – poderia passear ou me aventurar como qualquer jovem?

Momento de diversão

Também sempre me assustou o campo da auto imunidade exacerbada  pode gerar  doenças à mais como lúpus eritematoso, leucemia, vitiligo. Minha chance de desenvolver qualquer uma delas é maior.

Mas nada disto me impede de fazer meu curso universitário (Administração de Empresas)

Turma da Faculdade

De trabalhar como estagiaria em empresa publica, de comprar e dirigir minha moto, de pagar integralmente minha faculdade trabalhando todos os fins de semana em escola publica (Programa Estadual Escola da Família), de fazer caminhadas diárias com meus pais (ainda menos do que preciso) e de namorar (há quatro anos e meio, o mesmo querido moço).


 Ele me ajuda a me auto vigiar, sempre me lembrando de meus limites, pois a ultrapassagem da linha de segurança pode custar problemas renais, ou em meus olhos, ou de circulação sanguínea insuficiente em meus braços ou pernas ou até um acidente vascular cerebral.

Precisei de ajuda psicológica para entender que era uma fantasia minha imaginar que todas as pessoas tinham dó de mim, de forma automática, por causa de minha diabete.

Descobri que não precisava sentir vergonha por ser diabética, é questão de loteria genética, não tive conduta descuidada que provocasse a doença. Estou tentando aprender que primeiro vem “Eu preciso”, e depois “Eu gosto” (se possível). Vale para minha alimentação. Ou para a de todos nós? Ou para tudo na vida? “A inteligência é uma espécie de paladar que nos dá a capacidade de saborear ideias” – Susan Sontag.

 
Caso Real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiencia, colaboradora do “O Liberal”.

terça-feira, 19 de junho de 2012

DESDOBRA CORAÇÃO! Caso Real

   Sou Tarcisio, tenho cinqüenta e “uns” anos, era fotógrafo, com 33 anos a luz e a imagem que enxergava foram sumindo conforme evoluía minha retinose pigmentar.



Foi tanta tristeza que quase perdi o movimento das pernas também.A esposa pediu a separação.Fiquei anos trancado em casa, até medicação específica me libertar. 


Moro sozinho, tenho um único filho que hoje estuda fora da cidade. Mais tarde descobri o Centro de Prevenção à Cegueira, e numa aula de dança, minha parceira era a Solange. Gostava de longe de sua risada diferente, indicando pessoa sensível. 


Éramos considerados alunos com o corpo “duro” para dançar, e a dança deu tão certo que virou namoro.




Solange teve quando bem jovem dor de cabeça muito forte, derivante de tumor cerebral. Eliminaram seu câncer, mas junto foi sua visão e seu equilíbrio para se sustentar sozinha de pé. Não tem condições de uso da bengala para deficiente visual, só pode se locomover com apoio de um braço amigo.

Por minha vontade própria me tornei seu “braço-guia”. Depois da resistência que é comum, aprendi no CPC a técnica de uso da bengala de locomoção especial para o deficiente visual. Vou de ônibus de Americana para a casa de minha amada, em Nova Odessa. E juntos vamos ao CPC. Temos varias atividades, em vários dias – fisioterapia para melhorar o equilíbrio de Solange, Braille e informática para mim, ioga e dança de salão para os dois.

Depois, levo Solange de volta, para sua casa. Tenho todo o tempo do mundo, e toda a disponibilidade de ser companheiro também. Solange diz que “O amor é cego, mas o coração bate a mil por hora!”.



Enfim, nossa mensagem é simples: “Todos nós podemos sempre ajudar a todos – questão de desdobrar o coração!”



 Elizabeth Fritzsons da Silva, Psicóloga-Diretora/UADPD.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Namoro sem olho no olho : CASO REAL


    Cega já na incubadora, fui protegida por pais amorosos e preocupados, em cidade sem recursos para deficientes visuais.
No Centro de Prevenção à Cegueira aprendi a usar as mãos, a cozinhar, a andar com a bengala branca nas ruas e disparei a falar de tudo para todos, como a boneca Emília, do Sitio do Pica-Pau Amarelo – defendo os direitos com garra e delicadeza.



Benedito chegou ao CPC machucado pela sua visão falhando (diabetes), e por antiga relação afetiva não transparente. Não sabia, mas eu também estava machucada pelo fim de relação com outro deficiente visual do grupo, me faltou maturidade.
Pedidos de namoro aconteceram depois de seis meses. Falou de minha voz suave oferecendo água, café ou ajuda, Eu já era “da casa”. Um dia respondi com um beijo de sim!Hoje moramos juntos, dividindo todo trabalho da casa. Ele revitalizou minha vida, tinha medo de sair de casa, de voltar a estudar, de voltar a me apaixonar.



Fiz Benedito perceber o valor e a importância de alimentação sadia e de caminhar muito, conseguimos ótimas mudanças na diabete. Quando queria um lanche, eu pedia arroz-feijão. Benedito, parceiro mudava o cardápio. Sedução feminina do bem!



Hoje temos “rodinhas nos pés”, participamos de grupo terapêutico, aprendemos dança de salão, fazemos ioga, informática adaptada, Braille, já fizemos teatro, vamos à escola à noite (CEEJA), sou a representante do município da pessoa com deficiência visual, e Benedito meu suplente na Comissão Permanente de Acessibilidade, da Prefeitura Municipal e freqüentamos as reuniões da Fraternidade Crista de Deficientes em Santa Bárbara do Oeste. Matemática Divina – quando Deus soma duas infelicidades, pode conseguir uma só grande felicidade!



 Escrito por Elizabeth Fritzsons da Silva, Psicóloga-Diretora/UADPD.
  

Oferecemos arquivo de textos específicos, de documentos, leis, informativos, notícias, cursos de nossa região (Americana), além de publicarmos entrevistas feitas para sensibilizar e divulgar suas ações eficientes em sua realidade. Também disponibilizamos os textos pesquisados para informar/prevenir sobre crescente qualidade de vida. Buscamos evidenciar assim pessoas que podem ser eficientes, mesmo que diferentes ou com algum tipo de mobilidade reduzida e/ou deficiência, procurando informar cada vez mais todos para incluírem todos.