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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Cartilha: Pessoas com Deficiência e o Direito ao Concurso Público

Obra se destina às pessoas com deficiência que desejam conhecer seus direitos e prestar concurso público junto à administração pública direta e indireta, nos níveis federal, estadual e municipal. Propõe, ao mesmo tempo, ao administrador público o seguimento de regras básicas visando atender ao comando constitucional de reserva de cargo e emprego públicos, bem como vagas (quota) em cada concurso público que varia de 5% a 20%. Destina-se ainda ao advogado e ao membro do Ministério Público, pois demonstra a forma de proteção do direito da pessoa com deficiência. Ao juiz o conteúdo desta pretende ser como um manual de conceitos pertinentes à pessoa com deficiência, discutidos à luz do sistema jurídico atual.
As pessoas com deficiências somam hoje, segundo os dados do IBGE, cerca de 24,5 milhões de brasileiros e a cada concurso público (municipal, estadual ou federal) constata-se uma avalanche de mandados de segurança pela falta de cumprimento de requisitos essenciais que se iniciam com a reserva de vagas (ou falta delas). O edital de concurso público contendo a previsão do direito a inscrição (aqui se discute o conceito de aptidão plena do candidato para determinar funções compatíveis com a deficiência, como a pessoa com deficiência física que deseja fazer o concurso de bombeiros); a adaptação das provas (segundo o novo Decreto da Acessibilidade, nº 5.296/04); curso de formação; a elaboração de listas geral e especial de candidatos; a forma de nomeação; o estágio probatório (discute-se porque se barram candidatos com deficiência para determinadas funções); as atribuições da equipe multiprofissional e a necessidade de inspeção médica. Este é o cerne da discussão na obra, mostrando a fragilidade de decisões de Juizes, Tribunais e Supremo Tribunal Federal.
Para a perfeita compreensão da questão, apresentam-se também conceitos de administração pública direta e indireta em todos os níveis.
O trabalho abrange a conceituação das deficiência (física, mental, auditiva, visual e múltipla), a forma de designar a pessoa com deficiência, segundo a evolução de normas internacional (da ONU, OIT, OMS) e o que é a ação afirmativa ante as normas internacionais e os modelos existentes.
O princípio da igualdade e a discriminação positiva são abordados de acordo com a evolução das Constituições brasileiras e especificamente diante das leis em vigor (7.853/89, decreto nº 3.298/99).
A forma de proteger os direitos individuais, coletivos e difusos são tratados em tópico específicos, com a discussão do mandado de segurança (individual e coletivo) e as causas mais comuns de lesão. Igualmente se aborda a ação civil pública e a legitimidade do Ministério Público e das Associações de pessoas com deficiência.
Por fim, explana-se sobre o crime, previsão da lei nº 7.853/89, que é praticado contra a pessoa com deficiência, analisando as condutas do administrador.
A obra contém anexos com as principais convenções internacionais discutidas (Convenção 111/OIT); eliminação de todas as formas de discriminação racial e da mulher - ONU; convenção 159/OIT sobre reabilitação profissional e emprego de pessoas deficientes; convenção interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência), além de Declarações (Salamanca, Montreal, Sapporo e outras) que demonstram a evolução dos direitos conquistados pela pessoa com deficiência no mundo e desconhecidas no Brasil.


 

Ano 2012 
Editora Associação Brasileira de Editoras Universitárias 
Número de Páginas 214 
Autor / Organizador Maria Aparecida Gugel 
Edição 2006.00 
Arquivo PDF Clique Aqui

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Programador para a inclusão

Fernando Botelho
VENCEDOR DE FUTURO 
Aos 42 anos, o sociólogo, que, apesar de ter ficado cego na adolescência, cursou faculdade e mestrado nos EUA, administra, desde 2010, um negócio social que simplifica a inclusão digital, profissional e social de deficientes visuais com um software livre e com preço acessível .

A partir das próprias dificuldades, sociólogo desenvolve tecnologia social para sinalizar o caminho da inserção dos deficientes visuais
PAULA LAGO ENVIADA ESPECIAL A CURITIBA
 
"Andar no escuro é assustador -no começo", diz Fernando Botelho, 42, que perdeu totalmente a visão ainda na adolescência. Mas a deficiência não o impediu de ter uma trajetória ascendente.
Formado em sociologia na Universidade Cornell (EUA) e com mestrado em relações internacionais na Universidade de Georgetown (EUA),ele foi consultor da Unctad, agência das Nações Unidas em Genebra, e é fluente em inglês e espanhol.

Seu passaporte também impressiona -já morou nos EUA, na Argentina, no Chile, na Espanha, na França, nas ilhas Cayman e na Suíça.Até se estabelecer em Curitiba, há cinco anos, com Flávia de Paula, sua mulher, nunca tinha vivido além de quatro anos em uma cidade.

Seu problema de visão começou aos quatro anos, quando a mãe percebeu que ele tinha dificuldades para encontrar os brinquedos, mas o diagnóstico de retinose pigmentar só foi dado aos nove.
Para reverter o quadro da doença, sua família recorreu até a tratamentos experimentais no exterior. A cura não veio, mas, com o apoio dos pais, Fernando teve acesso a equipamentos de ponta que amenizaram os danos causados pela falta de visão.

COMPETITIVO
Foi então que decidiu estudar sozinho nos EUA. Queria "ser competitivo em uma área que não tivesse a ver com cegueira para ser reconhecido como profissional, não como cego profissional".
Estudou pesado, ficou popular, foi disputado para dançar no baile de formatura e ainda hoje tem contato com os amigos da universidade. Tudo isso para mostrar que não era "o ceguinho".
Essa briga contra o estereótipo do deficiente fez ele se expor a todo tipo de situação e lhe rendeu muitos casos saborosos e lembranças difíceis. Em 2001, quando morava em Nova York, estava só na rua, perto do World Trade Center, no dia 11 de setembro mais sombrio da história.
Sua descrição do atentado, porém, é diferente daquela a que estamos acostumados: ele diz que sentia pisar em cinzas e em papéis nas ruas, que havia um silêncio incomum e um cheiro fortíssimo de queimado.

MEDOS
Fernando é obstinado naquilo que traça como meta. Teimoso e sonhador, parece não ter medo de nada. Aliás, de quase nada: nos anos em que viveu no exterior, tudo o que mais temia era ter de
voltar a morar no Brasil.
"Eu sabia que tinha potencial, mas que não teria tantas chances aqui, na época.
Voltar para ficar revelando filme em quarto escuro ou fazendo vassoura?"
O medo se transformou em oportunidade quando o casal encarou nova mudança em 2007. Fernando concluiu que sua atividade na Suíça não o recompensava mais emocionalmente e que era hora de vir para o Brasil. "Eu percebia que os cegos poderiam se desenvolver se tivessem tecnologia. O problema era o preço da tecnologia."
Daí criou o F123, um sistema voltado para os deficientes visuais que utiliza software livre -disponibilizado para uso e cópia gratuitos, com possibilidade de adaptação-, custa menos do que os oferecidos pela concorrência e permite aos programadores melhorar o produto.
"Vi que, se me concentrasse na área da cegueira, poderia fazer a diferença, por minha experiência anterior, minha formação. Descobri que não tinha mais vergonha, que não estava diminuído por trabalhar nessa área."

FASE DOS POR QUÊS
Com o nascimento do projeto, ele atraiu para o campo da acessibilidade a mulher, com quem divide há 14 anos variadas experiências nas andanças pelo mundo e hoje, também, o escritório: ele é a parte desenvolvedora, idealizadora. Ela, dentista, atualmente conduz toda a parte administrativa do negócio.
Pelo que ambos dizem, não é ruim conviver por tanto tempo: "A gente não briga e aprendeu a confiar um no outro", afirma Flávia.
A irmã, Ana Botelho, destaca entre as características do empreendedor "sua incansável vontade de aprender mais em tudo e a incrível teimosia de não desistir frente a uma negação ou obstáculo". O pai, José Botelho, costuma dizer que o filho "não saiu da fase dos por quês".
Os amigos o definem como alguém especial. "Ele é altamente empreendedor e dotado de consciência social", diz Lukas Stückling, conselheiro do projeto F123 que trabalhou com o sociólogo na Suíça.
Fernando conta que sempre teve duas obsessões: provar ao mundo do que é capaz e ser útil a esse mesmo mundo. Porque andar no escuro, afinal de contas, é só uma forma diferente de andar.

INOVAÇÃO
É pioneiro ao adaptar, personalizar e simplificar os softwares livres disponíveis no mundo para serem usados por deficientes visuais. Portátil em pen-drive, o F123 tem versões semelhantes ao Windows e ao MS Office e pode ser usado até em LAN houses

IMPACTO SOCIAL
O F123 já beneficiou mais de 700 pessoas em 22 países. Mas só na versão lançada em setembro deste ano há um programa de monitoramento de cópias, que permite rastrear o número de usuários

REPLICABILIDADE
Foi criado na plataforma Creative Commons, que permite cópia e compartilhamento com menos restrições do que as licenças tradicionais. O objetivo do empreendedor é gerar impacto social, e não ter reconhecimento como autor do software
"Daqui a cinco anos, meu foco será o desenvolvimento de um sistema acessível de ensino de matemática para crianças cegas e a versão do F123 em francês para uso na África"
 
FERNANDO BOTELHO, Empreendedor Social de Futuro 2012 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

SOMOS DEFICIENTES VISUAIS SOCIAIS ?


As pessoas têm uma visão muito estereotipada sobre a pessoa com deficiência, razão que me obriga a esclarecer que eu sou uma garota de 22 anos como outra qualquer, que estudou, que quer trabalhar, que namora, que tem amigos, que gosta de sair de vez em quando, enfim, que faz o que todo mundo faz.Até os meus 17 anos, aliás, a deficiência visual não tinha quase nenhum impacto sobre a minha vida.

É claro que havia diferenças entre as outras crianças e eu, como por exemplo o fato de eu ter uma atividade extra (freqüentar uma instituição especializada no atendimento a pessoas com deficiência visual) e o fato de, na escola, eu me sentar sempre ao lado de um/a amigo/a que, enquanto copiava as lições da lousa, ia repetindo tudo em voz alta pra que eu pudesse copiar também no meu caderno (eu não conseguia enxergar o que estava escrito na lousa, mas sempre escrevi normalmente em cadernos comuns, só procurando comprar aqueles com linhas que tivessem um pouco mais de contraste).

Tive 4 desses amigos ao longo do Ensino Básico. Fora essas duas diferenças, porém, estou segura em dizer que não havia qualquer outra. Eu sempre fui uma ótima aluna, com boas notas. Aprendi a ler antes mesmo de entrar na pré-escola, estimulada pela minha família em casa.

Me relacionava normalmente com as outras crianças, acredito que por conta da minha postura, que, por sua vez, se devia à maneira como meus pais sempre lidaram com a situação, me fazendo crer que não sou diferente de ninguém e que não sou coitadinha.Mas a partir dos 17 anos, meu mundo começou a ruir. Isso coincidiu com a busca pelo primeiro emprego.

Quando decidi que era hora de trabalhar, percebi o quanto as portas estavam fechadas pra mim, apesar da lei de cotas. Descobri que muitas empresas encontraram uma maneira no mínimo questionável de lidar com a lei: já que eram agora obrigadas a contratar pessoas com deficiência, que fossem ao menos deficiências leves, muitas vezes quase imperceptíveis e com pouquíssimo impacto na vida das pessoas. A deficiência visual, obviamente, não estava incluída nessa concepção.

Rapidamente me dei conta de que ela inspira desconfiança e medo nos empregadores, que julgam os deficientes visuais como pessoas incapazes de ter alguma ocupação, e pior, que nos infantiliza (como aliás a sociedade em geral faz).O primeiro trabalho que consegui foi como empacotadora num supermercado (única vaga que muitas empresas do setor destinam a pessoas com deficiência, aliás). Não era o meu emprego dos sonhos.

Eu estava no segundo ano da faculdade de letras, e julgava que podia e merecia um emprego melhor. Mas precisava do dinheiro, porque as pessoas não se dão conta, mas os deficientes também têm contas a pagar, têm projetos de vida. Os meus sempre foram a estabilidade econômica, a casa própria, ter uma família (mas sem ser sustentada e dependente do meu namorado). E para pagar contas e realizar projetos como esses, é preciso ter dinheiro, que, por sua vez, só vem com o trabalho.

Não fiquei muito tempo nesse emprego. Eu sentia dores horríveis ao final do dia por permanecer tanto tempo em pé. Eu havia conseguido aprovação num exame para contratação de professores temporários na rede estadual, e decidi fazer aquilo que estava estudando pra fazer: dar aulas.Dei aulas durante um ano.

Nunca tive nenhum problema com os meus alunos. Muito pelo contrário, eles gostavam de mim e, falo com toda a segurança, eu não era uma professora menos competente que as outras pela deficiência visual. Mas o contrato durava apenas 1 ano, e por conta de uma lei estadual aprovada para impedir que temporários criassem vínculo com o estado, eu tinha de permanecer 200 dias letivos fora de uma sala de aula.

Como as contas não ficariam paradas por 200 dias, nem minhas necessidades e projetos, decidi procurar outro emprego. Encontrei vaga numa construtora, mas a decepção foi enorme.Fui contratada para preencher planilhas com dados das obras da empresa no computador. Mas nunca fiz isso realmente.

Quando cheguei, me deram a tarefa de separar notas fiscais. Muitas dessas notas eram de difícil visualização, e eu encontrava muitas dificuldades. O pessoal da empresa percebeu isso, e me transferiu pra recepção. Mas não tiveram confiança suficiente para me deixar realizar todas as atividades de uma recepcionista sozinha, e, obviamente, não iam manter duas funcionárias numa mesma função, então resolveram me demitir.

Foi uma demissão traumática, porque a empresa, em vez de conversar comigo, resolveu ligar para a minha mãe pra avisá-la sobre a demissão. Foi a minha mãe que me contou que eu seria demitida por telefone. Fiquei perplexa e muito revoltada, e fui falar com o pessoal do RH. E o mais surpreendente é que a responsável pelo setor disse não entender por que eu estava daquele jeito.

Considerou normal me tratarem como se eu fosse uma criança, ainda sob a responsabilidade da minha mãe; como se eu, mesmo sendo maior de idade, sendo escolarizada, estando no mercado de trabalho, fosse incapaz de resolver minhas próprias questões; como se meus olhos tivessem alguma relação com o meu cérebro, e portanto enxergar menos significasse ser mentalmente atrasada.Recentemente prestei um concurso público para professora no estado de São Paulo.

Fui aprovada, já escolhi minha escola, e agora estou passando por um curso de formação para os ingressantes, que é requisito básico para assumir o cargo. Mas tenho insônia ao pensar que ainda tenho pela frente uma perícia em que tudo pode acontecer, inclusive eu ser considerada inapta ao cargo por ser deficiente visual, e ver mais uma vez, com isso, meus sonhos irem por água abaixo.Porém creio que não foi só a decisão de trabalhar que fez com que tudo ruísse.

Quando somos crianças, não temos tanta percepção assim de tudo o que acontece. Acredito também que minha mãe tomava cuidado pra eu não perceber a indiscrição das pessoas (sim, elas são muito indiscretas e não conseguem se conter a fazer perguntas sobre o por que seu olho é assim). Mas quando a gente cresce, não há cuidado que evite perceber como as pessoas podem ser cruéis, como o mundo pode ser preconceituoso.Agora, escrevendo esse texto, me lembro de várias situações pelas quais passei, algumas, inclusive, cujas marcas permanecem até hoje e, creio, permanecerão pra sempre.

Certa vez, no Ensino Médio (que cursei numa escola técnica onde consegui estudar depois de ser aprovada num vestibulinho) uma professora propôs um trabalho em grupo. A turma foi formando os grupos e eu me sentei ao lado de umas meninas com as quais eu sempre fazia os trabalhos. Mas nesse dia uma dessas moças se levantou, e disse à professora e aos colegas: “Não é justo, toda vez que tem trabalho em grupo a Fernanda sempre sobra pra nós. Não estou reclamando, mas por que ninguém mais quer?”.

Fiquei em choque, em primeiro lugar por ter me sentido tão exposta, tão ridicularizada diante de todos; em segundo lugar porque eu nunca fiquei dependendo de ninguém em trabalho em grupo nenhum. Eu sempre fazia a minha parte e, não raras vezes, também a dos outros, porque sempre fui boa aluna.Nesse dia, saí da sala chorando. Enquanto saía, ouvi meus colegas e a professora repreendendo a moça.Também a ouvi tentar explicar o inexplicável.

Depois ela veio me pedir desculpas. Mas tem coisas que nem milhões de desculpas jamais apagam.Outra coisa que sempre acontece, além da indiscrição das pessoas em ficar perguntando, invadindo o meu espaço (porque eu detesto que me façam perguntas do tipo “nossa, você é cega?!”, principalmente quando estou acompanhada, porque aí não sou só eu a me constranger, mas quem me acompanha também, porque fica preocupado com o que eu vou sentir diante disso), é me tratarem como a mulher invisível.

Se eu encostar num balcão de uma lanchonete acompanhada de alguma outra pessoa, é incrível como o atendente não vai se dirigir a mim, mas a quem está comigo, pra perguntar o que é que eu vou querer comer!Acontece ainda, talvez por boa intenção, de as pessoas acabarem sendo desagradáveis por acreditarem que estão ajudando.

Certa vez eu saía de uma festinha no período da manhã, numa cidadezinha bem pequena onde morei por algum tempo num período em que saí da casa dos meus pais. E eis que surge uma senhora e sai me arrastando pelo braço para me levar até a casa da minha avó.Ajudar é uma coisa boa. Mas é bom esperar que te peçam ajuda, ou então oferecer a ajuda, deixando que a pessoa possa aceitar ou recusar. Mas sair arrastando alguém pelo braço é invadir o espaço da pessoa, é infantilizar, é constranger.

Algumas pessoas, porém, são mal intencionadas. Uma vez eu pedi informação sobre o ônibus que precisava pegar pra chegar em casa depois da aula (o transporte público é sempre um grande problema, porque não é adaptado a deficientes visuais, que não conseguem identificar itinerários). A pessoa me disse, depois de um tempo, que o ônibus que acabava de encostar era o que eu precisava. Subi, e depois percebi que não era.

Mas percebi quando ele estava na rodovia. Desci ali, num lugar perigoso, e só consegui voltar pra casa porque um homem parou e me deu uma carona. Mas a história podia não ter acabado tão bem.Com relação a relacionamentos afetivos, é impressionante como as pessoas são extremamente idiotas (não há outro termo).

Elas parecem ficar espantadas quando eu digo que namoro há cinco anos. Uma vez fui me consultar com um ginecologista, e ele foi fazendo as perguntas. Quando chegou a vez da pergunta “você já teve relações sexuais?” ele não esperou eu abrir a boca. Foi logo respondendo, ele mesmo: “não, né?”. Ora, por que não?

Não sou uma mulher como qualquer outra? Eu namoro como qualquer outra mulher da minha idade. Estou há cinco anos com uma pessoa que não é deficiente visual, e até tenho um enteado com o qual me dou maravilhosamente.Nunca tive problemas com isso. Ele não foi meu primeiro namorado e nunca ouvi nada de preconceituoso de homem algum. Só uma vez, por volta dos 12 (mas aí não se tratava de homem, e sim de criança), eu estava passando por uma rua próxima a minha casa, e escutei a seguinte conversa de dois garotos falando sobre mim: - Essa aí é a garota em quem você está interessado? - Não, ow! É claro que não, ela é cega!

Como se ter deficiência visual (o que no meu caso não equivale a cegueira) excluísse a possibilidade de alguém poder se interessar por mim. Como se fosse um absurdo que alguém se interessasse;Enfim, eu podia contar uma série de outras histórias da minha vida. Mas essas ilustram um pouco do preconceito que a gente sofre. E ilustram também o quanto nossa vida poderia ser normal, se as pessoas não fossem tão preconceituosas.

Texto elaborado por Fernanda Martins de Castro, graduada em Letras e Professora concursada no estado.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

I Seminário de Eficiência dia 23 de Novembro em Santa Barbara d'Oeste


Brasileiro quer criar o Google Street View dos cadeirantes

Ideia pode ganhar patrocínio do próprio Google. Membros da AACD irão percorrer São Paulo para fotografar e mapear as calçadas da cidade

O publicitário Eduardo Battiston não é cadeirante, mas entende a profundidade do tema. E quer fazer sua parte //Crédito: Divulgação

A vida de um cadeirante não é fácil. Apesar dessa afirmação ser verdadeira, ela não passa de uma suposição quando vinda da boca de um não-cadeirante. Só dá pra imaginar as dificuldades de locomoção que alguém nessas condições enfrenta todo dia, se sentirmos na pele esse desafio. Entender e se sensibilizar com o problema implica em assumir a perspectiva de um cadeirante, e é exatamente isso que o Acessibility View propõe.

O objetivo é mapear São Paulo do ponto de vista da acessibilidade. Mostrar os pontos mais críticos, as rotas mais viáveis e tudo mais que possa facilitar a vida do portador de deficiência física. “O Accessibility View vai funcionar como um Google Street View das calçadas”, explica Eduardo Battiston o homem por trás da ideia. Para realizar esse mapeamento, Eduardo quer pegar um grupo de membros da Associação de Assistência à Criança Deficiente AACD, equipá-los com câmeras fotográficas e mandar essa turma pra rua, pra tirar fotos panorâmicas como as do próprio Street View.

A ideia é uma das finalistas do Creative Sandbox, o programa do Google que vai patrocinar uma grande ideia brasileira que utilize pelo menos um produto da empresa em prol de um mundo melhor. A iniciativa vencedora será anunciada dia 5 de dezembro e receberá R$ 35 mil para ser colocada em prática.

O Acessibility View será um processo colaborativo e que, aos poucos, vai colocando a questão da acessibilidade no centro do debate público. Em tempos de eleição, essa necessidade fica ainda mais escancarada, “até porque a maior parte das pessoas com dificuldades de locomoção acabam não votando, pelo próprio problema de acessibilidade nas zonas eleitorais”, como bem lembrou Eduardo nessa conversa com a GALILEU.

Confira a entrevista abaixo e aproveite pra dar o play no vídeo de divulgação do Acessbility View.  
O que te inspirou a criar o Acessbility View?
Eduardo Battiston: Sempre fui muito sensível em relação ao problema da acessibilidade, principalmente depois de conhecer a realidade das crianças da AACD. Em 2009 tive o prazer de fazer junto com eles um projeto muito bonito: o Unique Types, no qual convidamos designers do mundo inteiro para criar tipografias inspiradas nas crianças atendidas pela entidade.

Se você tivesse que explicar como o Acessibility View funciona na prática, para alguém que nunca ouviu falar dele: o que você diria?
Eduardo Battiston:  A ideia é ajudar os cadeirantes a escolherem as melhores rotas para seus trajetos e, também, sensibilizar as autoridades para fazer a manutenção e as adaptações necessárias. Afinal, ajudar essas pessoas a se locomoverem pelas cidades ajuda na sua inserção na sociedade e, por que não, no mercado de trabalho.

O objetivo do Acessibility View é fazer as pessoas sentirem na pele como é difcíl para um cadeirante se locomover por conta própria?
Eduardo Battiston: Esse é apenas um dos objetivos. O objetivo principal é ajudar as pessoas com necessidades especiais a se locomoverem com maior facilidade, levando em conta os obstáculos – muitas vezes intransponíveis – que seus trajetos apresentam. Mas claro que, ao acessar o Accessibility View, uma pessoa sem necessidades especiais vai poder ver – em primeira pessoa – como cada pequeno obstáculo pode impactar a qualidade de vida de um cadeirante.

Existe algum tipo de obstáculo que a maioria das pessoas nem se dá conta de que atrapalha a movimentação de um cadeirante? Estamos condicionados a pensar que uma rampa basta. É só isso mesmo?

Eduardo Battiston: Amigos cadeirantes reclamam bastante da quantidade de buracos das calçadas e da falta de padronização das mesmas. Além disso, as rampas – quando existem – muitas vezes contam com uma inclinação exagerada, o que impossibilita o acesso dos cadeirantes sem a ajuda de terceiros.

Você mora em São Paulo, certo? Qual a pior região, o pior trecho para um cadeirante aqui?
Eduardo Battiston: Sou paulistano e atualmente moro em São Paulo. Se nos bairros mais centrais a manutenção das calçadas já deixa bastante a desejar, imagine nas periferias onde a própria topografia muitas vezes não favorece a mobilidade. Mesmo nos bairros mais urbanizados, temos problemas como faixas de pedestres esburacadas, calçadas inclinadas e rampas defeituosas. Acredito que a acessibilidade na nossa cidade melhorou muito nos últimos anos, mas ainda temos muito trabalho nessa área. Espero que essa ideia possa contribuir para que a cidade seja cada vez mais acessível, proporcionando lazer, educação, cultura e diversão para as milhares de pessoas com necessidades especiais.
E, certamente, vou precisar da ajuda de parceiros para que essa ideia saia do papel e vire realidade. Já tenho apoio do representante brasileiro das câmeras GoPro que vai fornecer todo equipamento de filmagem necessário para o mapeamento do Accessibility View. Agora espero que a ideia possa ganhar o concurso do Google (estamos entre os 10 finalistas do Google Sandbox Brasil) para que esse apoio de peso atraia outras empresas para ajudar a viabilizar o projeto.

Existe alguma cidade que seja modelo de acessibilidade?
Eduardo Battiston: No mundo temos Toronto e Berlim como alguns exemplos de acessibilidade. Mas, em geral, todas as capitais europeias dão um baile nesse quesito na maioria das nossas cidades. Não sou nenhum expert no assunto, mas sei que Curitiba e Uberlândia talvez sejam as cidades mais avançadas do Brasil na mobilidade das pessoas com necessidades especiais.

Em época de eleição, como você acha que o assunto da acessibilidade foi tratado? Quais foram os acertos e os equívocos durante a campanha e as expectativas que você nutre para o futuro? 
Eduardo Battiston: Pelo menos aqui em São Paulo não vi o tema sendo abordado. Até porque a maior parte das pessoas com dificuldades de locomoção acabam não votando, pelo próprio problema de acessibilidade nas zonas eleitorais. Para o futuro, espero que não só as autoridades, mas também a iniciativa privada invistam para termos uma cidade melhor para pessoas com necessidades especiais. Projetos como o Accessibility View podem ajudar a colocar esse assunto na pauta nos próximos anos.

Assista ao video da entrevista

 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Robótica mais perto do homem

Por Alfredo Durães
no Estado de Minas


Cientistas da USP São Carlos, em parceria com universidade norte-americana, se debruçam sobre a combinação entre neurônios, chips e próteses para beneficiar, no futuro, pessoas com deficiências auditivas e de mobilidade.

Na letra da música Índios, feita há quase 30 anos, o cantor e compositor Renato Russo, da banda Legião Urbana, tascou a frase: “E o futuro não é mais como era antigamente”. Descontadas as décadas de uso, ela continua em pleno uso e o futuro vai cumprindo, fielmente, aquilo a que sempre se propôs, ou seja, ser incerto. Faz parte de sua natureza. No entanto, a força brutal da tecnologia, que se impõe cada vez mais no presente, demonstra que o amanhã se torna, a cada dia, muito mais imprevisível. Bem mais do que imaginou (ou desconstruiu) o cantor. No campo da tecnologia, não é mais possível fazer previsões mais ou menos aproximadas. Para ficar com um exemplo simples, basta lembrar o uso popular (ou até mesmo a existência) de telefones celulares, smartphones ou iPads, algo absolutamente impensável há poucas décadas. Esses aparelhos estariam muito mais para a ficção científica e o desenho animado dos Jetsons que para a realidade palpável.


Nessa seara, devemos incluir a medicina aliada com a tecnologia, que dá passos no sentido de criar pequenas máquinas acopladas ao corpo humano. O que também não seria nenhuma novidade se levarmos em conta a existência de aparelhos para combater a surdez ou o bom e velho marcapasso, ambos já com anos de estrada. No entanto, o desafio atual são os chamados impulsos cerebrais aliados a chips, que estão sendo estudados de forma a se tornar aliados no combate a vários males físicos ou de mobilidade. Aparelhos que, por exemplo, ajudariam um tetraplégico a andar, a partir da combinação de funções entre neurônios, chips e próteses robóticas.

Não é possível dizer que essa espécie de, diríamos, “parte homem, parte robô” será uma realidade num futuro próximo. Como também é impossível dizer que não será. Nesse caminho, pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, estão tentando desenvolver chips implantáveis (com cerca de um centímetro quadrado), que permitam a substituição (ou interação) de partes do corpo por equipamentos eletrônicos com o uso de carbeto de silício (3C-SiC), material que não provoca reações adversas no organismo.

O estudo “Projeto e fabricação de chips implantáveis utilizando materiais biocompatíveis para interfaces cibernéticas avançadas” é do ICMC junto com a Universidade do Sul da Flórida (USF), nos Estados Unidos, visando ao intercâmbio de cientistas e alunos de graduação na área de biocibernética. Ele é aprovado pelo programa Ciência sem fronteiras, do governo federal, na categoria visitante especial. As interfaces cérebro-máquina já auxiliam a vida de milhares de deficientes físicos em todo o mundo. Segundo um dos autores do projeto, o professor do ICMC Mario Gazziro, “na prática, implantes cocleares (auditivos) são usados por cerca de 120 mil pessoas no mundo, além de 80 mil usuários dos implantes conhecidos como “estimulação profunda do cérebro”, para auxiliar no tratamento do mal de Parkinson e dores crônicas”.

Mas, o que é mesmo essa tecnologia e como funciona no corpo humano? De acordo com Gazziro, embora interfaces cérebro-máquina já sejam utilizadas em diversas áreas da medicina de reabilitação e tratamento, não existe uma solução prática para realização das interfaces com o córtex-motor. “Mesmo que diversos cientistas no mundo tenham provado que isso é possível — incluindo o cientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor titular do Departamento de Neurobiologia e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University (EUA) — e, a partir daí, controlar próteses robóticas, todos enfrentam o problema de biocompatibilidade a longo prazo dos eletrodos (que são os dispositivos que entram em contato com os neurônios), além de todos usarem fios na interface”, acresenta Gazziro.

CARBETO DE SILÍCIO Segundo ele, a proposta desenvolvida na USP São Carlos usa eletrodos de carbeto de silício — pois os eletrodos tradicionais são feitos de silício, que param de funcionar com o tempo — e uma tecnologia de transmissão de rádio. Gazziro pontua ainda que os dois grandes desafios da biocibernética são a compatibilidade do material usado na fabricação do chip com o organismo humano e o consumo de energia gasta pelo eletrodo dentro do dispositivo.

Ele diz que a questão da biocompatibilidade foi solucionada pelo professor norte-americano Stephen Saddow, da USF, que participa do projeto como visitante. A equipe de Saddow estudou diversos materiais semicondutores para descobrir que o carbeto de silício tem as propriedades necessárias para o desenvolvimento de uma interface cerebral. Depois de 30 dias de implantação, o 3C-SiC não causou grandes problemas ao tecido neural das cobaias.

O professor Dilvan de Abreu Moreira, do Departamento de Ciências de Computação do ICMC, é o coordenador técnico do projeto. Participam também o professor Carlos Alberto dos Reis Filho, da Universidade Federal do ABC, e Claudius Feger, do Centro de Pesquisas da IBM de São Paulo. A IBM, gigante americana na área de tecnologia, se interessou pelo projeto, pois se o experimento for um sucesso, será preciso industrializar o processo de fabricação de chips com carbeto de silício. Para Gazziro, a solução do biochip poderá ser usada em esqueletos artificiais feitos de metais resistentes que ampliam a capacidade física de portadores de deficiência. “Bastará o leitor dos sinais do chip enviar os comandos captados no cérebro para que eles substituam o papel do membro não funcional”, disse.

contraponto
“Do jeito que isso está sendo mostrado, uma mãe pode achar que seu filho paraplégico vai voltar a andar em breve. E não é verdade”, critica Sérgio Teixeira da Fonseca, orientador do curso de doutorado em ciência da reabilitação, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e editor da Revista Brasileira de Fisioterapia. Ele se mostra um pouco cético quanto ao assunto: “Penso que a interface homem-máquina está, atualmente, muito mais para a ficção científica do que para a realidade. Na minha concepção, é algo até viável, mas que atualmente enfrenta vários problemas. As pessoas não devem ficar muito animadas”, diz. Fonseca argumenta que um tetraplégico poderá até dar o chute inicial da Copa do Mundo em 2014, aqui no Brasil, como prometeu o cientista Miguel Nicolelis, mas será só isso. “A perna poderá sim ser estimulada, treinada para fazer o movimento do chute, mas daí até a pessoa andar, dar passos, é uma distância muito grande. O movimento do corpo humano é condicionado ao ambiente, ele se adapta para se relacionar com o mundo e isso a máquina não faz”, explicou.

Fonte: Estado de Minas

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Segundo o MEC, em 10 anos o número de matrículas de alunos com deficiência subiu 933,6%

A quantidade de matrículas de pessoas com deficiência na educação superior aumentou 933,6% entre 2000 e 2010. Estudantes com deficiência passaram de 2.173 no começo do período para 20.287 em 2010 – 6.884 na rede pública e 13.403 na particular.

O número de instituições de educação superior que atendem alunos com deficiência mais que duplicou no período, ao passar de 1.180 no fim do século passado para 2.378 em 2010. Destas, 1.948 contam com estrutura de acessibilidade para os estudantes.


No orçamento de 2013, o governo federal vai destinar R$ 11 milhões a universidades federais para adequação de espaços físicos e material didático a estudantes com deficiência, por meio do programa Incluir. O valor é quase quatro vezes maior em relação ao investimento deste ano, de R$ 3 milhões.

O Incluir http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=495&id=12257&option=com_content&view=article tem como objetivo promover ações para eliminar barreiras físicas, pedagógicas e de comunicação, a fim de assegurar o acesso e a permanência de pessoas com deficiência nas instituições públicas de ensino superior.

Até 2011, o programa foi executado por meio de chamadas públicas. Desde 2012, os recursos são repassados diretamente às universidades, por meio dos núcleos de acessibilidade. O valor destinado a cada uma é proporcional ao número de alunos.

Entre 2013 e 2014, o governo vai abrir 27 cursos de letras com habilitação em língua brasileira de sinais (libras) nas universidades federais, uma em cada unidade da Federação. Além disso, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) vai ofertar mais 12 cursos de educação bilíngue (português–libras) a partir do próximo ano.

Para dar suporte de recursos humanos aos novos cursos nas universidades federais, será autorizada a abertura de 229 vagas de professores e 286 de técnicos administrativos. As ações fazem parte do eixo educação do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência — Viver sem Limite, que envolve diversos ministérios para promover a inclusão, autonomia e direitos das pessoas com deficiência.

Fonte

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Curso de Capacitação de Profissionais com Deficiência


Este programa possibilitará o desenvolvimento de competências básicas para o mercado de trabalho e habilidades especificas para atuação na área de atendimento, trabalhando desde o conhecimento em informática, técnicas de atendimento ao cliente, digitação, práticas de produção de textos técnicos, comunicação oral e escrita, e etiqueta empresarial, elementos estes indispensáveis para desenvolvimento das funções de atendimento ao cliente.

Duração: dois meses e meio

Carga Horária: 5 horas /dia – Das 09h00 às 13h00 de Segunda-feira a Sábado

Público: Pessoas com deficiência. Serão aceitas quaisquer deficiências.

Formação: Ensino Médio Completo

Localidades: Todas as regiões próximas a Americana



Considerações Gerais sobre o Programa

Todos serão registrados desde o primeiro dia da Capacitação. Ao final do curso, os candidatos atuarão como Operador de Atendimento (escala de segunda à sábado) e pode escolher o horário de trabalho (manhã/tarde/noite)

Salário: R$ 682,00

Benefícios: VT + VR (R$ 12,50 dia) + AM  + AO + Auxilio Creche (para mãe com filhos de até 5 anos) + Convênio com Farmácias + PLR (de até 3 salários ao ano que dá cerca de R$ 200,00 à 300,00 a mais no salário)


Início: 22 de Outubro de 2012

ENVIE O SEU CURRÍCULO PARA VAGAS@SEMBARREIRAS.COM.BR

Ou ligue: 9 (11) 4323 5101    /    9 (11) 3439 9291

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Acessibilidade e Cultura: Por que sim? Por que não?


Flavia Boni Licht.


Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um.

Arquiteto João Filgueiras Lima

No seu artigo 5º, Capítulo 1, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos, afirma a Constituição brasileira, vigente desde 1988, que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.
Já a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – aprovada por unanimidade pela ONU em 2007, ratificada pelo nosso Congresso e promulgada pelo presidente da República em 2009 – abre seu Capítulo 3 listando os princípios gerais válidos para reger a integralidade de seu conteúdo, dentre os quais destacamos o respeito pela dignidade, autonomia e independência das pessoas, a não-discriminação e a igualdade de oportunidades, o direito à plena e efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela diferença.

Também vigente neste país desde o ano 2000, lembramos aqui o contido na Lei federal 10.098 (regulamentada, em 2004, pelo Decreto 5.296) que estabelece as normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação.
Bem antes disso, ainda na década de 1990, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e Câmara Municipal de Porto Alegre aprovam leis que determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente a todas as pessoas nos espaços públicos.

Assumimos também, desde 1948, quando foi promulgada pela ONU a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que toda pessoa tem direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes, e que, com a aprovação, em 2007, da já citada Convenção Internacional, os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência a participar na vida cultural, em base de igualdade com as demais pessoas, e deverão tomar todas as medidas apropriadas para que as pessoas com deficiência possam usufruir o acesso a materiais, atividades e serviços culturais, bem como a monumentos e locais de importância cultural nacional.

Aceitando e tomando por base esse conjunto de preceitos, parece-me ficar sem sentido a pergunta: por que sim à acessibilidade? A resposta pode ser dada de forma singela e definitiva: porque é lei! Ou melhor, leis, inúmeras leis. E leis que foram estudadas, debatidas e aprovadas, e que expressam direitos humanos essenciais, direitos essenciais de todo ser humano! E que, portanto, devem – ou deveriam – ser cumpridas.
Mas sabemos bem que algumas leis não pegam e que nas questões de direitos humanos não somos tão virtuosos como gostamos de nos acreditar ser. Assim, talvez o melhor seja discutir, mais do que o por que sim, o seu contraponto direto, o por que não à acessibilidade.

Foi tentando encontrar respostas para essa interrogação que iniciei, neste ano de 2011, pesquisa dirigida à identificação das barreiras existentes à participação das pessoas nos espaços, programas, atividades e serviços das instituições culturais públicas municipais de Porto Alegre e nas instituições culturais com atividades públicas em edificações tombadas pelo nosso município. Poderia ter optado por outro foco: escolas, bancos, hospitais, restaurantes, igrejas, hotéis.

Escolhi as instituições culturais por três motivos. Os dois primeiros, mais pragmáticos: a facilidade de contato com essas instituições por estar trabalhando na Coordenação da Memória Cultural, vinculada à Secretaria Municipal da Cultura, e a possibilidade de, partindo da identificação das barreiras existentes, sugerir e, talvez, até concretizar algumas mudanças nos locais pesquisados. O terceiro motivo que me conduziu a essa escolha foi o de acreditar que o acesso à cultura no seu sentido mais pleno – incluindo a participação na dinâmica da sua própria criação, seja como artista, seja como espectador – está entre os direitos humanos fundamentais.

Assim, nessas instituições – cuja essência é o estudo e a prática da cultura, a qual, tomando por empréstimo as palavras de José Luiz dos Santos, contribui no combate a preconceitos, oferecendo plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas – imaginava eu encontrar terreno fértil e favorável para avançar neste debate.

Mesmo sabendo de antemão, por conhecê-los, que a quase totalidade dos espaços dedicados à cultura não atendem às exigências da legislação e normativas da acessibilidade no que se refere aos seus prédios, supunha que, nesses locais, muitos programas e serviços já estivessem sendo desenvolvidos com esse olhar.
Assim, organizei previamente dois instrumentos para o recolhimento de dados: um questionário direcionado aos gestores das instituições, com questões referentes à participação pública (acesso/entendimento/uso) nos espaços, programas, atividades e serviços oferecidos; e um roteiro para guiar a avaliação técnica das características físicas das edificações e do entorno imediato.

E iniciei o trabalho. Falando, ouvindo, observando, medindo, lendo, anotando, fotografando. Todos aqueles até agora entrevistados são profissionais qualificados, reconhecidos e com larga experiência nas suas respectivas áreas de atuação. E mesmo tendo visitado poucas instituições do total listado, acredito já ser possível trazer aqui algumas observações, apresentar algumas reflexões, formular algumas perguntas para seguir esse debate, transitando entre as possíveis respostas para o por que não à acessibilidade.

Começando, então, pelas questões aparentemente mais singelas, fica explícito o desconhecimento do significado do termo acessibilidade. A existência de uma rampa ou de um elevador já permite afirmar, na quase totalidade das vezes, que uma instituição é acessível. Acessibilidade como qualidade que respeita o direito de todos e abre possibilidade para a compreensão dos espaços, o estabelecimento de relações com os seus conteúdos e o uso dos seus diversos elementos reduz-se, majoritariamente, à existência de uma rampa ou de um elevador.

Mesmo que essa rampa ou esse elevador estejam em desacordo com os detalhes explicitados nas normativas; mesmo que todas as demais exigências legais não tenham sido contempladas; mesmo deixando de lado o olhar do senso comum e ouvindo observações profissionais, nunca foram lembrados o Braile, a Libras, a áudio-descrição ou o piso tátil, só para ficar em alguns exemplos.

Várias explicações para esse fato podem ser encontradas. Uma delas, talvez a mais óbvia, diz respeito ao símbolo internacional da acessibilidade, o qual estabelece a correspondência direta à imagem de uma cadeira de rodas. Não que se defenda aqui mudança desse símbolo, hoje mundialmente usado e reconhecido. São apenas tentativas de encontrar explicações para exigências não cumpridas e para desconhecimentos do real significado e abrangência do termo.

Outra observação recorrente – e que para os diretamente envolvidos com a temática pode parecer já superada – é a necessidade de ampliar sempre e cada vez mais a divulgação dos direitos das pessoas com deficiência, da necessidade dos projetos terem como foco a diversidade humana e da acessibilidade como uma conquista de todos e para todos. Na maioria dos casos, o que se constata não é uma disposição desfavorável, e sim desconhecimento.

Avançando um pouco além do mais evidente e entrando num terreno menos concreto e mais espinhoso, vale perguntar se, talvez, o por que não à acessibilidade estaria relacionada diretamente ao fato de não reconhecermos no diferente alguém com direitos iguais aos nossos.

Afinal, construímos, com requintes e detalhes, uma cultura excludente que nos esforçamos em manter e aprofundar desde a democracia ateniense, que sacrificava as crianças nascidas com deficiência, até os tempos atuais: há poucos anos, numa escola aqui em Porto Alegre, alunos de seis anos de idade ouviram de um professor, no primeiro dia de aula, que ali não seriam colegas, nem amigos, e sim competidores. Como uma dessas crianças pode pensar em ser solidária? Como respeitará as diferenças?

A pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada em 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), que entrevistou quase vinte mil alunos, pais, mães, diretores, professores e funcionários em 501 escolas públicas brasileiras, concluiu que 96,5% dos entrevistados têm preconceito com relação a pessoas com deficiência.

O estudo, realizado com o objetivo de criar e incentivar ações para fazer chegar à escola o respeito às diferenças, indica ainda que 99,9% dos entrevistados desejam manter distância de algum grupo social (98,9% das pessoas com deficiências mentais e também dos homossexuais; 97,3% dos ciganos; 96,2% das pessoas com deficiência física; 95,3% dos indígenas; 94,9% dos pobres; 94,6% dos moradores da periferia ou de favelas; 91,1% dos moradores da área rural e 90,9% dos negros).

De acordo com o coordenador dessa pesquisa, o professor José Afonso Mazzon, não existe alguém que tenha preconceito em relação a uma área e não tenha em relação à outra. A maior parte das pessoas tem de três a cinco áreas de preconceito. O fato de todo indivíduo ser preconceituoso é generalizado e preocupante.

Voltando ao trabalho que estou realizando, algumas respostas que ouvi também apontam para uma direção preocupante: Nunca tinha pensado nisso! Pensava que essas exigências eram apenas para ônibus e para calçadas. Nunca imaginei que um centro cultural precisasse atendê-las.O arquiteto evitou desfigurar a fachada principal do prédio e colocou a rampa na entrada lateral, vinda do estacionamento. Afinal, todo cadeirante chega aqui de automóvel. Aqui, tratamos de Cultura! Nosso foco não é o atendimento a pessoas com deficiência.

São comentários que denotam desinformação. Como já explicitado neste mesmo texto, as leis existem e estão em vigor há um tempo razoavelmente longo. Por que são ignoradas? Será por puro desinteresse pelo outro, pelo diferente de mim, pelas suas necessidades? Neste mundo em que hoje vivemos, onde o que vale é chegar na frente, ser o vencedor, talvez quanto maior o número de barreiras, melhor. Desde que para os outros, claro.

Zygmunt Bauman, em Confiança e Medo na Cidade, afirma que as diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças, precisamos formular novas questões. Quais seriam elas?

Será que temos medo de nos defrontar, conforme afirmou a jornalista Lelei Teixeira no seu depoimento na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, por ocasião do seminário Mídia e Deficiência, com a pessoa com deficiência, que, seja por razões físicas ou mentais, instaura a desordem num mundo aparentemente normal, desorganiza a frágil organização da sociedade? [...] Ao ignorar ou excluir as diferenças, certamente toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a eliminação do humano, do caráter criativo e inusitado dos homens, que está no encontro das suas múltiplas possibilidades e capacidades.
O Conselho Internacional de Museus (ICOM) expressa claramente, no seu Código de Ética, que as instituições culturais têm o compromisso de abrir seus espaços, acervos, coleções e atividades a todos os públicos, agindo como interface da multiplicidade de percepções, gerando acesso para diversificadas sensibilidades e para variados entendimentos, visando a satisfazer uma das necessidades básicas do ser humano: conhecer nosso mundo. Não custa perguntar quantas vezes esse Código é desrespeitado...
Assim, necessário se faz, portanto, a construção de estratégias e metodologias, a utilização de equipamentos e produtos, o desenvolvimento de programas e projetos que possibilitem o acesso, a contemplação e a captação dos conteúdos expressos pelo patrimônio cultural de forma não discriminatória.
  • Como os profissionais atuantes nesses centros devem atender demandas diferenciadas, incorporando a acessibilidade às práticas institucionais cotidianas?
  • Como um museu deve se preparar para receber todos os usuários de forma a contribuir com o desenvolvimento das potencialidades funcionais, neutralizando e superando diferenças sensoriais, físicas e/ou cognitivas?
Em 2009, a Galeria Tátil do Museu do Louvre organizou no Museu Nacional de Bogotá a exposição Sentir para Ver. A mostra trouxe alguns questionamentos importantes: a Vênus de Milo, representação da deusa do amor, era um objeto que podia ou não ser tocado pelos gregos? Possuíam as culturas pré-hispânicas uma diferença clara e marcada entre as peças que apenas podiam ser vistas e as que podiam ser tocadas? As imagens da Virgem Maria e de outros santos venerados nos territórios americanos durante o período colonial e, inclusive, até hoje, não são imagens que foram tocadas e abraçadas pelos devotos como demonstração de afeto e gratidão? Quantos tocaram uma escultura de Simon Bolívar em praças de diferentes cidades latino-americanas? Quem se atreveria a tocar uma estátua de Bolívar exposta num museu? O tocar e o não tocar estão mediados por uma série de parâmetros estabelecidos que são próprios dos espaços públicos e dos privados. Porém, foram sempre iguais esses parâmetros? Quem os define?
Interessante refletir sobre isso: por que podemos tocar numa escultura colocada em praça pública? E por que isso nos é vedado naquelas expostas em museus? Essa diferenciação existe mesmo em se tratando, por exemplo, de esculturas assinadas pelo mesmo artista (seja ele mais ou menos famoso), independente do material (seja ele mais ou menos frágil) e da época em que foram executadas (seja ela mais ou menos histórica). Será o caráter do espaço - aberto ou fechado - que distingue o tipo de contato do público com as obras de arte? Quem estabeleceu os padrões que impedem ou incitam aproximações? Quando e por que esse toque deixou de ser incentivado e passou a ser proibido?

Vale também pensar por que delegamos majoritariamente ao olho toda a possibilidade de captar sensações? Por que, pelo papel hegemônico dado à visão, reprimimos o toque e, em menor escala, todos os demais sentidos?

Tendo como objetivo a inclusão de todos na construção e na fruição da cultura, não seria o caso de, sem rejeitar as virtudes do ver, apostar fundo na multissensorialidade ou – de forma mais poética, como nos fala Gaston Bachelard – na polifonia dos sentidos? Afinal, como bem lembrado pelo arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, o olho é o órgão da distância e da separação, enquanto o tato é o sentido da proximidade, intimidade e afeição. O olho analisa, controla e investiga, ao passo que o toque aproxima e acaricia.
Longe desse entendimento, muitas vezes, um simples toque é visto como um ato de destruição. Mas qual toque tem o poder de aniquilar marcas da nossa cultura? Apenas o humano? E o toque do tempo também não age sobre um bem? E, ao restaurar um bem, não destruímos essa ação do tempo, que, por sua vez, também o enriquece? Como nos demos esse direito? Quem nos deu esse direito?

Ainda no final do século XIX, John Ruskin, um dos primeiros teóricos da restauração, já alertava para a impossibilidade de copiar a obra da chuva e do sol, pois o resultado de uma restauração sempre terá a ‘dureza’ de uma obra nova. Mais adiante, com reflexões já datadas do século XX, o arquiteto italiano Camilo Boito defende que nenhuma intervenção deverá tocar a poesia e a pátina do tempo. Também Cesare Brandi, na sua Teoria da Restauração publicada em 1963, reafirma a questão da temporalidade, nos dizendo ser inaceitável apagar as marcas do transcurso do tempo nas obras de arte.

Talvez valha repensar o que define a qualidade cultural de um bem e qual o limite da obra original? Considerando a longevidade do monumento, qual o momento histórico a ser preservado? Quem tem o poder de tomar essa decisão? E se nossos bens não deixam de ser patrimônio quando se deterioram e se restauram, por que deixariam de sê-lo quando tornados acessíveis a todos? O que e quem define a autenticidade de um bem? Será que não é chegado o momento de, na carona da acessibilidade, revisar todos esses ensinamentos que fomos recebendo e repassando sem parar para pensar?

No documento intitulado Carta de Brasília, elaborado em 1995, em reunião coordenada pelo IPHAN e da qual participaram representantes dos países do Cone Sul, lê-se que O significado da palavra autenticidade está intimamente ligado à ideia de verdade: autêntico é o que é verdadeiro, o que é dado como certo, sobre o qual não há dúvidas.

Aqui, também cabe perguntar: o que é verdadeiro? O que pode ser dado como certo? Sobre o que não há dúvidas? Carlos Drummond de Andrade perturba algumas certezas definitivas no seu poema Verdade. Vale refletir com ele.

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

O que a porta da verdade escancara nesse quadro do patrimônio e da acessibilidade?
Sabemos todos que, nos museus, os objetos exigem condições específicas e adequadas de catalogação, acondicionamento, manuseio, conservação, umidade, temperatura, luminosidade, limpeza e restauro. E as pessoas? São os seres humanos ou os objetos que têm necessidades? Colecionar, preservar e expor são um fim em si ou uma forma do museu desempenhar seu papel social, facilitando e estimulando a todos – independente de idade e de condição física – o acesso à cultura?

Como se pode ver, as interrogações são intermináveis, têm inúmeros significados, percorrem variadas direções. Mas se mantém sempre a dúvida mais abrangente, que acolhe todas as demais: por que não à acessibilidade?

Sabemos que, em muitos casos, para garantir a vida dos monumentos, instituições culturais se instalam em edificações históricas tombadas. Aqui, o estabelecimento da relação entre acessibilidade e cultura torna-se ainda mais complexo, considerando que tais edifícios são frutos de épocas passadas onde a inclusão não figurava entre os preceitos legais daquelas sociedades.

Mas, com o passar da história, novos ventos sopram nas antes definitivas e conservadoras teorias e práticas sociais. E isso também acontece no que se refere aos ditames internacionais relacionados à manutenção e conservação dos monumentos. Podemos ler, por exemplo, já em 1964, na renovadora Carta de Veneza que a preservação será sempre favorecida por sua função útil à sociedade (desde que as alterações necessárias para tanto não desvirtuem o autêntico de cada bem).

Passados pouco mais de dez anos, em 1976, na sua 19ª Sessão, reunida em Nairóbi, sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e sua Função na Vida Contemporânea, a UNESCO estabelece, entre os princípios gerais daquela Carta, a necessária e harmoniosa integração dos monumentos na vida coletiva da nossa época.

Aprofundando a relação entre acessibilidade e patrimônio, em 1990, o arquiteto Antonio Cravotto - representando a Comissão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Uruguai, no 2º Seminário Ibero-americano de Promotores e Formadores em Acessibilidade ao Meio Físico, realizado em Montevidéu - apresentava seu entendimento sobre essas questões, meio na contramão do muito que se vê ou ouve por aí ainda hoje: em termos práticos, os bens patrimoniais só podem ser salvaguardados se usados apropriadamente no presente [...]. Para tanto, todos esses bens serão necessariamente afetados por modificações espaciais e estruturais; incorporação de elementos, dispositivos, sistemas e redes técnicas; inclusão de equipamentos e de sinalização. Essas intervenções não possuem justificativa nem melhor nem diferente das originadas pela eliminação das barreiras para pessoas com deficiência.

Ou seja - e assim eu entendo a posição do professor Cravotto - ou os bens patrimoniais se adaptam às exigências contemporâneas, ou eles vão perdendo o seu significado, pela impossibilidade de uso. Isso poderá ferir muitos ouvidos, mas, por si só, a transformação de uma residência num museu já pressupõe inúmeras adequações. A instalação de modernos aparelhos de ar condicionado em prédios históricos não seria um exemplo definitivo e inconteste de adaptações permitidas, aceitas e até festejadas? Mais exemplos? A substituição de superadas instalações elétricas e hidráulicas ou de madeiras atacadas por cupins em telhados, esquadrias e pisos. Só quando chegamos à questão da acessibilidade, tudo se torna agressivo ao bem patrimonial. Por que dizemos não apenas à acessibilidade? Pelo custo das adequações? Isso me parece uma questão menor frente a tudo o que se admite gastar nas demais intervenções.

No caso específico das questões afetas ao projeto dos espaços, tombados ou não, muitas vezes se ouve que as adaptações ferem o edifício, pois têm aspecto desagradável; a bela escadaria de mármore não poderá receber um corrimão, pois se entende que a inserção desse novo elemento irá desfigurar a majestosa fachada. Diferente disso – e também no que se refere à acessibilidade – projetos bem estudados geram bons e qualificados espaços. O sempre citado acesso principal ao Museu do Louvre, realização do arquiteto I.M.Pei, é apenas um dentre tantos. Porém, muitas vezes, as adaptações dos espaços para que atendam aos requisitos da acessibilidade são feitas meio que para se livrar do problema. Aí, dificilmente as soluções deixarão de ser ruins ou equivocadas.

Saindo dos edifícios e chegando às praças públicas dos centros históricos – igualmente consideradas, e com razão, ambientes culturais – esse posicionamento – o não apenas à acessibilidade – se mantém vivo e forte: aceitamos a eliminação ou a substituição de árvores e arbustos, a inserção de novos quiosques, bancos e lixeiras, a mudança no desenho dos canteiros, a troca das antigas placas de sinalização. Mas, olhando pelo foco da acessibilidade, aceitamos, quando muito, alguns rebaixos em meio-fios. Nem pensar em macular as calçadas de pedra portuguesa com a execução de um piso tátil, absolutamente necessário para que as pessoas cegas ou com baixa visão possam aproveitar aquele espaço com a mesma liberdade e autonomia de que dispõem todos os demais. Ou em estudar alternativas melhores para pisos pouco confortáveis aos usuários de cadeiras de rodas.

Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) publica sua Instrução Normativa nº. 1, que também trata da relação entre acessibilidade e patrimônio histórico: as soluções adotadas para a eliminação, redução ou superação de barreiras na promoção da acessibilidade aos bens culturais imóveis devem compatibilizar-se com a sua preservação e, em cada caso específico, assegurar condições de acesso, de trânsito, de orientação e de comunicação, facilitando a utilização desses bens e a compreensão de seus acervos para todo o público.

Dessa forma, tomando como base as palavras do professor Cravotto e também as instruções do IPHAN, cabe perguntar:
  • Será possível respeitar o passado de uma edificação, desrespeitando os direitos das pessoas, selecionando com nossas decisões de restauro, quem pode ou não pode desfrutar de um patrimônio que é de todos?
  • Assim como no caso dos acervos, será que não deveríamos pensar primeiro nas necessidades dos seres humanos e depois nas dos edifícios?
Sabe-se que esse não é um trabalho fácil nem rápido. Teremos que, para tanto, desconstruir nossos conhecimentos e também nossas práticas para pesquisar, descobrir e edificar novas e boas soluções para todos, mas, sem a menor dúvida, é chegado o momento de perguntar como transformar também nossas instituições culturais em espaços acessíveis para que, efetivamente, se constituam em motor de mudança na direção de uma sociedade inclusiva.
Será que não seremos todos iguais na diversidade, se a infraestrutura for adequada, se a tolerância desafiar os padrões, se o respeito romper com os programas e projetos tradicionais, se a solidariedade voltar a ser considerada como um valor por todos nós? Talvez seja essa uma utopia, mas – e, para concluir, volto às palavras do professor Cravotto – não será a utopia, corretamente entendida, a determinar a acertada direção de um avanço social?
Por que não à acessibilidade?

Referências:

  1. BAUMAN, Zygmunt. CONFIANÇA E MEDO NA CIDADE. Jorge Zahar Editor. São Paulo. 1ª edição. 2009.
  2. JUNCÁ UBIERNA, José Antonio. El binomio Accesibilidad y Patrimonio: a la búsqueda de un equilibrio compatible. ACCESIBILIDAD Y PATRIMONIO – YACIMIENTOS ARQUEOLÓGICOS, CASCOS HISTÓRICOS, JARDINES Y MONUMENTOS. Junta de Castilla y León, España. 2007.
  3. LEMOS, Carlos A. C. O QUE É PATRIMÔNIO HISTÓRICO. (Coleção Primeiros Passos - 3ª reimpressão da 5ª edição de 1987).São Paulo. Ed. Brasiliense, 2006.
  4. MIGUEL, Ana Maria Macarrón. HISTORIA DE LA CONSERVACIÓN Y LA RESTAURACIÓN: DESDE LA ANTIGÜEDAD HASTA FINALES DEL SIGLO XIX. Technos Ed. Madrid 1995.
  5. PALLASMAA, Juahani. OS OLHOS DA PELE – A ARQUITETURA DOS SENTIDOS.Bookman Companhia Editora/Artmed Editora S.A. Porto Alegre, 2011..
  6. SANTOS, José Luiz. O QUE É CULTURA. (Coleção Primeiros Passos - 14ª reimpressão da 16ª edição de 1996).São Paulo. Ed. Brasiliense, 2008.
  7. TOJAL, Amanda Fonseca e outros. CADERNO DE ACESSIBILIDADE. REFLEXÕES E EXPERIÊNCIAS EM EXPOSIÇÕES E MUSEUS. 1ª edição. Expomus. São Paulo. 2010.
Do livro: Celebrando a Diversidade. Pessoas com Deficiência e Direito à Inclusão.
Edição 2010.
Organização: Flavia Boni Licht e Nubia Silveira.
Apoio: Planeta Educação - em especial, Elisete Oliveira Santos Baruel e Érika de Souza Bueno.
Capítulo IX: Pela Expressão na Cultura, no Turismo e no Lazer
Artigo: Acessibiilidade e Cultura: Por que Sim? Por que Não?
Flavia Boni Licht (Porto Alegre)
– arquiteta, responsável pela concepção desta publicação e, em parceria com a jornalista Nubia Silveira, de sua organização.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Reforma do código penal: “Está na hora de a sociedade civil se envolver”, diz Juliana Belloque

Durante sete meses, uma comissão de juristas composta por 16 membros analisou o Código Penal brasileiro e deu início a um longo processo de debates sobre a reforma deste conjunto de leis fixado em 1940. A defensora pública do Estado de São Paulo, Juliana Belloque, fez parte desta comissão, que analisou dezenas de leis especiais e centenas de artigos do Código Penal.


Depois deste longo processo de debate entre especialistas, o Projeto de Lei 236/2012 vai agora, no segundo semestre de 2012, ser debatido pelos senadores da República, que também convocarão audiências públicas. Segundo Belloque, o Código Penal “precisar ser atualizado, reformado, discutido por toda a sociedade”.

“É preciso envolver todos os setores da sociedade. É muito importante que os movimentos brasileiros em geral participem deste debate. É essa lei que vai dizer quais são as condutas criminosas, que nós entendemos como as mais graves na nossa sociedade. Há temas como aborto, uso de drogas, terrorismo”, diz Juliana. “Nós temos a terceira maior população carcerária do mundo. É muito importante que o debate seja o mais amplo possível. A lei deve representar a sociedade brasileiras e não apenas o desejo de alguns”, completou.

Entre os pontos positivos da reforma, ela destacou a descriminalização do uso de drogas, o tratamento do tema do aborto como uma questão de saúde pública, a diminuição da pena para crimes contra o patrimônio sem o uso de violência e o fim da previsão de pena de privação de liberdade para atos obscenos, apologia ao crime e desacato a autoridade.

Posição da Conectas
Conectas considera fundamental a participação e o envolvimento da sociedade civil na discussão do novo Código Penal e apoia as propostas que caminham no sentido de diminuir o papel do Estado – mais especificamente do Direito Penal – na vida privada dos cidadãos.

Nos causa preocupação, no entanto, medidas que visam aumentar penas, criminalizar novas condutas ou dificultar a ressocialização dos egressos do sistema prisional.

Com uma das maiores populações carcerárias do mundo, e com um déficit de cerca de 200 mil vagas, o sistema penitenciário brasileiro está em colapso, e o novo Código Penal não pode ignorar esses dados da realidade. Afinal, é justamente em nome dela que se pretende atualizar as normas “atuais”, que remontam a 1940.

Fonte

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pesquisa aponta impacto da prática esportiva em pessoas com deficiência

Estudo da Allianz e da TNS Infratest revela que o esporte aumenta a autonomia e melhora a qualidade de vida.

Este e outros infográficos estão publicados no link ao final da matéria

Por Eric Bragion

A Allianz, em parceria com a TNS Infratest, realizou um estudo na Alemanha sobre o papel do esporte na vida de pessoas com deficiência física. A pesquisa aponta que a prática esportiva é um meio para se obter mais autonomia e menos restrições, auxiliando na volta às atividades do dia a dia e na melhora da qualidade de vida.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), de 20 a 50 milhões de pessoas por ano adquirem lesões não fatais somente em acidentes de carros, o que pode refletir em perdas permanentes ou podem ser reduzidas com exercício regular.

“Depois de um acidente, o esporte é normalmente uma parte importante da reabilitação, o que ajuda na recuperação da forma física. Por meio dele, pessoas com e sem deficiência podem fazer parte da sociedade e melhorar a sua autoconfiança”, lembra o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), Sir Philip Craven.

A internet tem um papel importante no acesso ao esporte para pessoas com deficiência física, revelou o estudo. Esse canal aumenta o fluxo de informação sobre a prática de atividades físicas e a perspectiva de participar delas. Além disso, instalações desportivas, oportunidades de treinamento, comunicação e a troca de informação entre centros esportivos e entusiastas de diversas modalidades têm o acesso facilitado no mundo on-line.

Em geral, é considerado extremamente difícil saber como lidar com pessoas com deficiência, tanto na vida cotidiana quanto na prática esportiva. “Grandes eventos, como os Jogos Paralímpicos de Londres 2012, podem ajudar a fortalecer a posição do esporte adaptado na sociedade e quebrar preconceitos”, diz o Head de Group Market Management da Allianz SE, Joseph K. Gross. “O profissionalismo, ambição e espírito de equipe dos atletas paralímpicos os levam para a excelência e os tornam estrelas e exemplos para todos nós”.


Fonte

IMPORTANTE:

Pessoas com deficiencia em Americana: a Secretaria de Esportes organiza turmas para natação adaptada em Fevereiro e Agosto. Também oferece atletismo adaptado segunda, quarta e sexta-feiras. 
Fazer contato com o professor Marcio pelos telefones 3406-1043 ou 3406-6111 para maiores informações. Email: centrocivico@americana.sp.gov.br
























AINDA HÁ VAGAS! – AINDA HÁ VAGAS! – AINDA HÁ VAGAS!

Curso de AUXILIAR TÊXTIL

AONDE? Escola SENAI de Americana
PARA QUEM? Pessoas com deficiência
INÍCIO? Imediato


ESTRUTURA DO CURSO: Primeiro módulo (Português e Matemática)
                                              Segundo Módulo (Auxiliar Têxtil)

DURAÇÃO PREVISTA : Primeiro Módulo até o final deste ano de 2012
                                           Segundo Módulo – dois anos

HORÁRIOS POSSÌVEIS : Turmas matutinas, aulas das 8horas às 11horas e 30 minutos
                                             Turmas noturnas, aulas das 18 horas e quinze minutos até as
                                             22 horas.

DOCUMENTOS NECESSÀRIOS PARA A INSCRIÇÂO :
                                             Laudo Médico, certificando a deficiência e limitações
                                             CPF
                                              RG
                                              Comprovante de endereço (conta de água ou luz)

MAIS INFORMAÇÕES : Fazer contato com PROFESSOR RODRIGO, nos telefones
                                             (15) 9719 1338
                                             (11) 9745 22911
                                              pr_rodrigo12@hotmail.com


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Surdocego: Síndrome de Usher A comunicação com o tato facilita a vida dos portadores da doença, que afeta a audição e a visão

A bordadeira Jailma Gomes Araújo vai entrelaçando linhas enquanto aguarda o fim da aula do filho Lucas, de 9 anos, que estuda na Escola Especial para Crianças Surdas da Fundação dos Rotarianos, em Cotia, na Grande São Paulo. Suas mãos são hábeis também no uso da Libras, a Língua Brasileira de Sinais, aprendida depois que a surdez do garoto foi detectada, quando tinha 14 meses. Agora, o que Jailma vem tecendo com Lucas é um delicado trabalho de adaptação à diminuição da visão, que começou aos 4 anos, e o revelou como portador da síndrome de Usher. 


De origem genética, a síndrome tem graus variáveis e associa a surdez, presente já no nascimento, com a perda gradual da visão, que se inicia na infância ou na adolescência. A cegueira, parcial ou total, é causada pela retinose pigmentar, mal que pode atingir até não-portadores. "A doença afeta primeiro a visão noturna e depois

a periférica, das laterais, preservando por mais tempo a central. Causa também sensibilidade à luz forte", diz a oftalmologista Juliana Ferraz Sallum, chefe do Setor de Retina da Universidade Federal de São Paulo. "Ainda não há cura, embora muitas pesquisas estejam em andamento", explica a médica.


Adaptação e diagnóstico

Enquanto a cura não vem, portadores, familiares e especialistas juntam forças para facilitar a adaptação ao cotidiano.

O primeiro esforço é sempre de ordem psicológica, para lidar com a realidade. "A resistência ao diagnóstico leva à busca de soluções que não existem e perde-se um tempo precioso", diz a pedagoga Shirley Rodrigues Maia, presidente do Grupo Brasil de Apoio ao Surdo-Cego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial, que reúne várias instituições.

A prioridade, segundo Shirley, deve ser o aprendizado de uma nova forma de comunicação, pois a leitura de lábios ou de sinais não é suficiente diante da cegueira. Os sistemas mais usados por surdos-cegos são o Libras Táteis (em que o deficiente visual segura a mão de quem está fazendo os sinais) e o alfabeto manual (em que os sinais são desenhados sobre a palma da mão do portador). Para a orientação e a mobilidade física, o domínio da bengala é de grande ajuda.

Embora a síndrome de Usher seja incurável, é possível amenizar ou retardar alguns de seus efeitos. Há casos de surdez parcial atenuados com cirurgias e aparelhos auditivos. Os óculos também podem ser mais adequados, incluindo os de visão subnormal. "A retinose pigmentar costuma ainda ter problemas associados, como catarata e edema macular, que podem ser operados, permitindo que a pessoa enxergue melhor por mais tempo", explica a médica.

Em qualquer caso, o diagnóstico precoce é muito importante. Apesar de que os portadores possam ser até 7% das crianças nascidas surdas, a perda tardia da visão retarda a identificação da síndrome. Por isso, o Grupo Brasil vai iniciar por São Paulo a Campanha Nacional pela Saúde Ocular do Deficiente Auditivo, para estimular os exames oftalmológicos nas crianças e adolescentes surdos.

Os pais devem ficar atentos a alguns sinais característicos. A criança com Usher pode ter dificuldade de equilíbrio, além dos indícios da cegueira noturna. "O Lucas arrastava os pés, tropeçava à noite, não encontrava objetos pequenos, segurava fortemente a minha mão e se agarrava a mim para andar no escuro", conta Jailma. Por isso, os portadores merecem atenção redobrada à noite, pois sentem-se inseguros. E toda iluminação deve ser cuidadosa, porque o excesso os afeta.

Esperança sem limites
inevitável que a surdo-cegueira estabeleça limites às atividades das crianças. "O Lucas não pode brincar na rua quando escurece, pois fica mais sujeito a quedas e acidentes", explica Jailma. Mas não há barreiras para o desenvolvimento da aprendizagem, da inteligência, da sensibilidade. "Ele adora matemática, informática, filmes, teatro. É teimoso e não gosta de usar os óculos escuros quando o sol está forte. Ele também é muito esperto e sabe se virar, vai à doçaria sozinho, conhece dinheiro, faz compras", conta a mãe.

Atentos também aos outros filhos - Carolina, de 12 anos, e os gêmeos Pedro e Bia, de 6 anos, todos não-portadores e capazes de se comunicar fluentemente com o irmão -, Jailma e o marido, Pedro, vão preparando Lucas para o futuro. A mãe revela um misto de apreensão e esperança. Esperança na medicina, mas esperança principalmente no potencial de Lucas. Esperança que aumenta cada vez que ela convive com os adultos surdos-cegos que encontra nos grupos de apoio. "Conhecer pessoas que vivem essa realidade e são produtivas, têm profissões e ainda ajudam os outros, é animador. Elas me dão certeza de que meu filho tem muitas chances e as limitações não são o fim da linha", diz a bordadeira.

APOIO QUALIFICADO
Além de campanhas para estimular o diagnóstico precoce da síndrome de Usher, o Grupo Brasil de Apoio ao Surdo-Cego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial (com 18 associados em todas as regiões do país) desenvolve uma rede de projetos para apoiar os portadores e as suas famílias. "Temos uma série de oficinas para atender a diferentes objetivos", diz Shirley. As oficinas culturais visam facilitar a sociabilização dos portadores e, em São Paulo, oferecem cursos de dança, teatro e artes plásticas. Já as oficinas de geração de renda dão treinamento para atividades profissionais, como o artesanato de papelaria, biscuí e culinária. A clínica de reabilitação ajuda a desenvolver a orientação e a mobilidade, com o uso da bengala. O Grupo Brasil fica na rua Baltazar Lisboa, 212, Vila Mariana, % 11/5579-5438, fax 11/5579-0032 e e-mail grpbrasil@ssol.com.br.

Curso de Pedagogia promove encontro com a palestrante surda-cega Cláudia Sofia Indalecio
Cláudia Sofia é presidente da Associação Brasileira de Surdos-Cegos, é palestrante e participa de congressos. 

Como parte das atividades desenvolvidas pelos alunos do 4º. ano de Pedagogia , em parceria com os alunos do ensino médio, (11 surdos e 15 ouvintes) com as quais existe um acordo de parceria para atividades que visam o trabalho em equipe com ênfase na convivência, na ética e na cidadania, as Faculdades Integradas Rio Branco promoveram um encontro com a palestrante surda-cega, Cláudia Sofia, no dia 11 de junho (sábado), que contou sua história de vida, suas dificuldades e suas experiências. 

Sofia é presidente da ABRASC-Associação Brasileira de Surdos-Cegos, trabalha na ADEFAV e na AHIMSA, instituições que cuidam de múltiplas deficiências, é palestrante, participou de congresso internacional na Bolívia . Acompanhou-a sua intérprete, que a ajuda a comunicar-se transmitindo-lhe pela articulação das palavras o que as pessoas falam, mediante a colocação dos dedos de Sofia em seu queixo.
A palestrante veio acompanhada por seu marido, Carlos Jorge Rodrigues, também surdo-cego, que foi interpretado por nossos alunos em LIBRA (Língua Brasileira de Sinais), e pela intérprete do Curso de Pedagogia para os ouvintes. Ele também é palestrante. Ainda enxerga um pouco, conseguindo ler com uma lupa, porém sofre da síndrome de Usher - perda gradativa da visão. Participou em maio de um Congresso na Finlândia, do qual estavam presentes 36 surdos-cegos dos mais diversos países. O idioma oficial foi o inglês, que ele domina. 

Foram três horas de palestra, em que o casal contou como perderam os dois sentidos e os preconceitos que enfrentaram, até mesmo para casar. Relataram suas vidas, suas lutas, seu dia a dia e falaram de seus estudos (ela estudou espanhol e ele inglês). "Foi uma lição de vida e um momento muito emocionante, que permanecerá na memória de todos", afirma a coordenadora do Curso de Pedagogia, professora Maria Genny Caturegli. As Faculdades Integradas Rio Branco têm alunos surdos em seu quadro discente, e oferecem tradução simultânea em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), durante as aulas e demais atividades promovidas pelas Faculdades. fonte:Faculdade Integradas Rio Branco - SP

Fonte 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Parceria entre escola e família deve priorizar a aprendizagem

Aumentar a participação da família nas decisões escolares e estruturar o aprendizado em casa estão entre as principais recomendações para fortalecer o vínculo entre a escola e o contexto local. “O que mais se vê é a culpabilização de uma pela outra, pela repetência, evasão escolar e violência na escola”, aponta Miriam Abramovay, socióloga e pesquisadora da área de juventude.

A estudiosa ressalta que existe uma defasagem entre o tipo de aprendizagem que a escola oferece e a realidade cotidiana proporcionada pela cultura de rua e do jovem. “A escola ficou no século passado ao não considerar o que vem de fora, demonstrando que não está preparada para as crianças e jovens do século 21″, considera.

Para que a parceria aconteça de fato, afirma Abramovay, é necessário rever responsabilidades, limites e expectativas de cada uma das partes– família e escola. Outro aspecto limitante dessa relação é o pouco espaço dado às famílias na construção das práticas educativas da escola. “Na maioria das vezes as família são chamadas apenas para a entrega das notas ou porque existe algum problema com seus filhos”, ressalta.
Não existe, acrescenta ela, por parte das famílias – mais ainda se situadas em áreas de alta vulnerabilidade social – , uma “cultura da reivindicação” que permita saber não apenas o que seu filho está aprendendo, mas também como são as relações sociais, o cotidiano e o clima no ambiente escolar.

Aproximar a família, ouvindo suas queixas e dando início ao diálogo, reconhecendo que os familiares podem ter voz dentro das escolas é um dos primeiros passos para reverter essa distância. Por outro lado, Abramovay sugere que a escola peça das famílias maior atenção com suas crianças e jovens.
Também é fundamental que os pais criem em casa um ambiente estruturado para o estudo e a aprendizagem. “Importantíssimo que os pais saibam que há diferença entre ter três livros em casa e não ter nenhum. Isso certamente desperta o interesse e também o rendimento da criança na escola”, pontua Miriam.
Aprendizagem

Para Denis Mizne, diretor geral da Fundação Lehmann, organização sem fins lucrativos, voltada à melhoria da educação pública no Brasil, “não existe o aluno e o filho como duas entidades separadas. São a mesma pessoa.” O foco primordial da escola, ressalta, deve estar na aprendizagem.
Num contexto de vulnerabilidades sociais e baixo acesso aos serviços públicos, os avanços na qualidade do ensino acabam sendo pouco discutidos. Segundo Mizne, a colaboração mútua entre a comunidade escolar e a família deve priorizar o pleno desenvolvimento do aluno em sala de aula.

“Boa parte dos pais não tiveram acesso a uma boa escola. Falta repertório de vivências e exemplos de como se deve supervisionar a educação escolar em casa. A ideia da necessidade de acompanhamento pelos pais é algo recente”, afirma.

Uma medida interessante, sugere ele, seria apresentar com nitidez quais são as diretrizes curriculares da escola, para que os pais possam averiguar qual o aproveitamento real de seus filhos ao longo do ano letivo.
O investimento em melhores condições de trabalho para os professores pode ajudar a estreitar esses laços. “A carreira deveria ser estruturada de forma a facilitar a vinculação do educador a uma única escola, o que certamente contribuiria para fortalecer a relação com a comunidade”, defende Mizne.

O debate entre especialistas ocorreu durante a mesa “Práticas de aproximação com a família e a comunidade”, realizada em São Paulo durante o I Seminário de Proteção Escolar, na última semana de agosto.

Fonte
Oferecemos arquivo de textos específicos, de documentos, leis, informativos, notícias, cursos de nossa região (Americana), além de publicarmos entrevistas feitas para sensibilizar e divulgar suas ações eficientes em sua realidade. Também disponibilizamos os textos pesquisados para informar/prevenir sobre crescente qualidade de vida. Buscamos evidenciar assim pessoas que podem ser eficientes, mesmo que diferentes ou com algum tipo de mobilidade reduzida e/ou deficiência, procurando informar cada vez mais todos para incluírem todos.