Flavia Boni Licht.
Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um.
Arquiteto João Filgueiras Lima
No seu artigo 5º, Capítulo 1, que trata dos direitos e deveres
individuais e coletivos, afirma a Constituição brasileira, vigente desde
1988, que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza.
Já a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência –
aprovada por unanimidade pela ONU em 2007, ratificada pelo nosso
Congresso e promulgada pelo presidente da República em 2009 – abre seu
Capítulo 3 listando os princípios gerais válidos para reger a
integralidade de seu conteúdo, dentre os quais destacamos o respeito
pela dignidade, autonomia e independência das pessoas, a
não-discriminação e a igualdade de oportunidades, o direito à plena e
efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela
diferença.
Também vigente neste país desde o ano 2000, lembramos aqui o contido
na Lei federal 10.098 (regulamentada, em 2004, pelo Decreto 5.296) que
estabelece as normas gerais e critérios básicos para a promoção da
acessibilidade mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas
vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma
de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação.
Bem antes disso, ainda na década de 1990, a Assembleia Legislativa do
Rio Grande do Sul e Câmara Municipal de Porto Alegre aprovam leis que
determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente a todas
as pessoas nos espaços públicos.
Assumimos também, desde 1948, quando foi promulgada pela ONU a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, que toda pessoa tem direito
de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as
artes, e que, com a aprovação, em 2007, da já citada Convenção
Internacional, os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com
deficiência a participar na vida cultural, em base de igualdade com as
demais pessoas, e deverão tomar todas as medidas apropriadas para que as
pessoas com deficiência possam usufruir o acesso a materiais,
atividades e serviços culturais, bem como a monumentos e locais de
importância cultural nacional.
Aceitando e tomando por base esse conjunto de preceitos, parece-me
ficar sem sentido a pergunta: por que sim à acessibilidade? A resposta
pode ser dada de forma singela e definitiva: porque é lei! Ou melhor,
leis, inúmeras leis. E leis que foram estudadas, debatidas e aprovadas, e
que expressam direitos humanos essenciais, direitos essenciais de todo
ser humano! E que, portanto, devem – ou deveriam – ser cumpridas.
Mas sabemos bem que algumas leis não pegam e que nas questões de
direitos humanos não somos tão virtuosos como gostamos de nos acreditar
ser. Assim, talvez o melhor seja discutir, mais do que o por que sim, o
seu contraponto direto, o por que não à acessibilidade.
Foi tentando encontrar respostas para essa interrogação que iniciei,
neste ano de 2011, pesquisa dirigida à identificação das barreiras
existentes à participação das pessoas nos espaços, programas, atividades
e serviços das instituições culturais públicas municipais de Porto
Alegre e nas instituições culturais com atividades públicas em
edificações tombadas pelo nosso município. Poderia ter optado por outro
foco: escolas, bancos, hospitais, restaurantes, igrejas, hotéis.
Escolhi as instituições culturais por três motivos. Os dois
primeiros, mais pragmáticos: a facilidade de contato com essas
instituições por estar trabalhando na Coordenação da Memória Cultural,
vinculada à Secretaria Municipal da Cultura, e a possibilidade de,
partindo da identificação das barreiras existentes, sugerir e, talvez,
até concretizar algumas mudanças nos locais pesquisados. O terceiro
motivo que me conduziu a essa escolha foi o de acreditar que o acesso à
cultura no seu sentido mais pleno – incluindo a participação na dinâmica
da sua própria criação, seja como artista, seja como espectador – está
entre os direitos humanos fundamentais.
Assim, nessas instituições – cuja essência é o estudo e a prática da
cultura, a qual, tomando por empréstimo as palavras de José Luiz dos
Santos, contribui no combate a preconceitos, oferecendo plataforma firme
para o respeito e a dignidade nas relações humanas – imaginava eu
encontrar terreno fértil e favorável para avançar neste debate.
Mesmo sabendo de antemão, por conhecê-los, que a quase totalidade
dos espaços dedicados à cultura não atendem às exigências da legislação e
normativas da acessibilidade no que se refere aos seus prédios, supunha
que, nesses locais, muitos programas e serviços já estivessem sendo
desenvolvidos com esse olhar.
Assim, organizei previamente dois instrumentos para o recolhimento de
dados: um questionário direcionado aos gestores das instituições, com
questões referentes à participação pública (acesso/entendimento/uso) nos
espaços, programas, atividades e serviços oferecidos; e um roteiro para
guiar a avaliação técnica das características físicas das edificações e
do entorno imediato.
E iniciei o trabalho. Falando, ouvindo, observando, medindo, lendo,
anotando, fotografando. Todos aqueles até agora entrevistados são
profissionais qualificados, reconhecidos e com larga experiência nas
suas respectivas áreas de atuação. E mesmo tendo visitado poucas
instituições do total listado, acredito já ser possível trazer aqui
algumas observações, apresentar algumas reflexões, formular algumas
perguntas para seguir esse debate, transitando entre as possíveis
respostas para o por que não à acessibilidade.
Começando, então, pelas questões aparentemente mais singelas, fica
explícito o desconhecimento do significado do termo acessibilidade. A
existência de uma rampa ou de um elevador já permite afirmar, na quase
totalidade das vezes, que uma instituição é acessível. Acessibilidade
como qualidade que respeita o direito de todos e abre possibilidade para
a compreensão dos espaços, o estabelecimento de relações com os seus
conteúdos e o uso dos seus diversos elementos reduz-se,
majoritariamente, à existência de uma rampa ou de um elevador.
Mesmo que essa rampa ou esse elevador estejam em desacordo com os
detalhes explicitados nas normativas; mesmo que todas as demais
exigências legais não tenham sido contempladas; mesmo deixando de lado o
olhar do senso comum e ouvindo observações profissionais, nunca foram
lembrados o Braile, a Libras, a áudio-descrição ou o piso tátil, só para
ficar em alguns exemplos.
Várias explicações para esse fato podem ser encontradas. Uma delas,
talvez a mais óbvia, diz respeito ao símbolo internacional da
acessibilidade, o qual estabelece a correspondência direta à imagem de
uma cadeira de rodas. Não que se defenda aqui mudança desse símbolo,
hoje mundialmente usado e reconhecido. São apenas tentativas de
encontrar explicações para exigências não cumpridas e para
desconhecimentos do real significado e abrangência do termo.
Outra observação recorrente – e que para os diretamente envolvidos
com a temática pode parecer já superada – é a necessidade de ampliar
sempre e cada vez mais a divulgação dos direitos das pessoas com
deficiência, da necessidade dos projetos terem como foco a diversidade
humana e da acessibilidade como uma conquista de todos e para todos. Na
maioria dos casos, o que se constata não é uma disposição desfavorável, e
sim desconhecimento.
Avançando um pouco além do mais evidente e entrando num terreno menos
concreto e mais espinhoso, vale perguntar se, talvez, o por que não à
acessibilidade estaria relacionada diretamente ao fato de não
reconhecermos no diferente alguém com direitos iguais aos nossos.
Afinal, construímos, com requintes e detalhes, uma cultura excludente
que nos esforçamos em manter e aprofundar desde a democracia ateniense,
que sacrificava as crianças nascidas com deficiência, até os tempos
atuais: há poucos anos, numa escola aqui em Porto Alegre, alunos de seis
anos de idade ouviram de um professor, no primeiro dia de aula, que ali
não seriam colegas, nem amigos, e sim competidores. Como uma dessas
crianças pode pensar em ser solidária? Como respeitará as diferenças?
A pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada
em 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), que
entrevistou quase vinte mil alunos, pais, mães, diretores, professores e
funcionários em 501 escolas públicas brasileiras, concluiu que 96,5%
dos entrevistados têm preconceito com relação a pessoas com deficiência.
O estudo, realizado com o objetivo de criar e incentivar ações para
fazer chegar à escola o respeito às diferenças, indica ainda que 99,9%
dos entrevistados desejam manter distância de algum grupo social (98,9%
das pessoas com deficiências mentais e também dos homossexuais; 97,3%
dos ciganos; 96,2% das pessoas com deficiência física; 95,3% dos
indígenas; 94,9% dos pobres; 94,6% dos moradores da periferia ou de
favelas; 91,1% dos moradores da área rural e 90,9% dos negros).
De acordo com o coordenador dessa pesquisa, o professor José Afonso
Mazzon, não existe alguém que tenha preconceito em relação a uma área e
não tenha em relação à outra. A maior parte das pessoas tem de três a
cinco áreas de preconceito. O fato de todo indivíduo ser preconceituoso é
generalizado e preocupante.
Voltando ao trabalho que estou realizando, algumas respostas que ouvi
também apontam para uma direção preocupante: Nunca tinha pensado nisso!
Pensava que essas exigências eram apenas para ônibus e para calçadas.
Nunca imaginei que um centro cultural precisasse atendê-las.O arquiteto
evitou desfigurar a fachada principal do prédio e colocou a rampa na
entrada lateral, vinda do estacionamento. Afinal, todo cadeirante chega
aqui de automóvel. Aqui, tratamos de Cultura! Nosso foco não é o
atendimento a pessoas com deficiência.
São comentários que denotam desinformação. Como já explicitado neste
mesmo texto, as leis existem e estão em vigor há um tempo razoavelmente
longo. Por que são ignoradas? Será por puro desinteresse pelo outro,
pelo diferente de mim, pelas suas necessidades? Neste mundo em que hoje
vivemos, onde o que vale é chegar na frente, ser o vencedor, talvez
quanto maior o número de barreiras, melhor. Desde que para os outros,
claro.
Zygmunt Bauman, em Confiança e Medo na Cidade, afirma que as
diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar
amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças,
precisamos formular novas questões. Quais seriam elas?
Será que temos medo de nos defrontar, conforme afirmou a jornalista
Lelei Teixeira no seu depoimento na Assembleia Legislativa do Estado do
Rio Grande do Sul, por ocasião do seminário Mídia e Deficiência, com a
pessoa com deficiência, que, seja por razões físicas ou mentais,
instaura a desordem num mundo aparentemente normal, desorganiza a frágil
organização da sociedade? [...] Ao ignorar ou excluir as diferenças,
certamente toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a eliminação
do humano, do caráter criativo e inusitado dos homens, que está no
encontro das suas múltiplas possibilidades e capacidades.
O Conselho Internacional de Museus (ICOM) expressa claramente, no seu
Código de Ética, que as instituições culturais têm o compromisso de
abrir seus espaços, acervos, coleções e atividades a todos os públicos,
agindo como interface da multiplicidade de percepções, gerando acesso
para diversificadas sensibilidades e para variados entendimentos,
visando a satisfazer uma das necessidades básicas do ser humano:
conhecer nosso mundo. Não custa perguntar quantas vezes esse Código é
desrespeitado...
Assim, necessário se faz, portanto, a construção de estratégias e
metodologias, a utilização de equipamentos e produtos, o desenvolvimento
de programas e projetos que possibilitem o acesso, a contemplação e a
captação dos conteúdos expressos pelo patrimônio cultural de forma não
discriminatória.
- Como os profissionais atuantes nesses centros devem atender demandas
diferenciadas, incorporando a acessibilidade às práticas institucionais
cotidianas?
- Como um museu deve se preparar para receber todos os usuários de
forma a contribuir com o desenvolvimento das potencialidades funcionais,
neutralizando e superando diferenças sensoriais, físicas e/ou
cognitivas?
Em 2009, a Galeria Tátil do Museu do Louvre organizou no Museu
Nacional de Bogotá a exposição Sentir para Ver. A mostra trouxe alguns
questionamentos importantes: a Vênus de Milo, representação da deusa do
amor, era um objeto que podia ou não ser tocado pelos gregos? Possuíam
as culturas pré-hispânicas uma diferença clara e marcada entre as peças
que apenas podiam ser vistas e as que podiam ser tocadas? As imagens da
Virgem Maria e de outros santos venerados nos territórios americanos
durante o período colonial e, inclusive, até hoje, não são imagens que
foram tocadas e abraçadas pelos devotos como demonstração de afeto e
gratidão? Quantos tocaram uma escultura de Simon Bolívar em praças de
diferentes cidades latino-americanas? Quem se atreveria a tocar uma
estátua de Bolívar exposta num museu? O tocar e o não tocar estão
mediados por uma série de parâmetros estabelecidos que são próprios dos
espaços públicos e dos privados. Porém, foram sempre iguais esses
parâmetros? Quem os define?
Interessante refletir sobre isso: por que podemos tocar numa
escultura colocada em praça pública? E por que isso nos é vedado
naquelas expostas em museus? Essa diferenciação existe mesmo em se
tratando, por exemplo, de esculturas assinadas pelo mesmo artista (seja
ele mais ou menos famoso), independente do material (seja ele mais ou
menos frágil) e da época em que foram executadas (seja ela mais ou menos
histórica). Será o caráter do espaço - aberto ou fechado - que
distingue o tipo de contato do público com as obras de arte? Quem
estabeleceu os padrões que impedem ou incitam aproximações? Quando e por
que esse toque deixou de ser incentivado e passou a ser proibido?
Vale também pensar por que delegamos majoritariamente ao olho toda a
possibilidade de captar sensações? Por que, pelo papel hegemônico dado à
visão, reprimimos o toque e, em menor escala, todos os demais sentidos?
Tendo como objetivo a inclusão de todos na construção e na fruição da
cultura, não seria o caso de, sem rejeitar as virtudes do ver, apostar
fundo na multissensorialidade ou – de forma mais poética, como nos fala
Gaston Bachelard – na polifonia dos sentidos? Afinal, como bem lembrado
pelo arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, o olho é o órgão da distância
e da separação, enquanto o tato é o sentido da proximidade, intimidade e
afeição. O olho analisa, controla e investiga, ao passo que o toque
aproxima e acaricia.
Longe desse entendimento, muitas vezes, um simples toque é visto como
um ato de destruição. Mas qual toque tem o poder de aniquilar marcas da
nossa cultura? Apenas o humano? E o toque do tempo também não age sobre
um bem? E, ao restaurar um bem, não destruímos essa ação do tempo, que,
por sua vez, também o enriquece? Como nos demos esse direito? Quem nos
deu esse direito?
Ainda no final do século XIX, John Ruskin, um dos primeiros teóricos
da restauração, já alertava para a impossibilidade de copiar a obra da
chuva e do sol, pois o resultado de uma restauração sempre terá a
‘dureza’ de uma obra nova. Mais adiante, com reflexões já datadas do
século XX, o arquiteto italiano Camilo Boito defende que nenhuma
intervenção deverá tocar a poesia e a pátina do tempo. Também Cesare
Brandi, na sua Teoria da Restauração publicada em 1963, reafirma a
questão da temporalidade, nos dizendo ser inaceitável apagar as marcas
do transcurso do tempo nas obras de arte.
Talvez valha repensar o que define a qualidade cultural de um bem e
qual o limite da obra original? Considerando a longevidade do monumento,
qual o momento histórico a ser preservado? Quem tem o poder de tomar
essa decisão? E se nossos bens não deixam de ser patrimônio quando se
deterioram e se restauram, por que deixariam de sê-lo quando tornados
acessíveis a todos? O que e quem define a autenticidade de um bem? Será
que não é chegado o momento de, na carona da acessibilidade, revisar
todos esses ensinamentos que fomos recebendo e repassando sem parar para
pensar?
No documento intitulado Carta de Brasília, elaborado em 1995, em
reunião coordenada pelo IPHAN e da qual participaram representantes dos
países do Cone Sul, lê-se que O significado da palavra autenticidade
está intimamente ligado à ideia de verdade: autêntico é o que é
verdadeiro, o que é dado como certo, sobre o qual não há dúvidas.
Aqui, também cabe perguntar: o que é verdadeiro? O que pode ser dado
como certo? Sobre o que não há dúvidas? Carlos Drummond de Andrade
perturba algumas certezas definitivas no seu poema Verdade. Vale
refletir com ele.
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
O que a porta da verdade escancara nesse quadro do patrimônio e da acessibilidade?
Sabemos todos que, nos museus, os objetos exigem condições
específicas e adequadas de catalogação, acondicionamento, manuseio,
conservação, umidade, temperatura, luminosidade, limpeza e restauro. E
as pessoas? São os seres humanos ou os objetos que têm necessidades?
Colecionar, preservar e expor são um fim em si ou uma forma do museu
desempenhar seu papel social, facilitando e estimulando a todos –
independente de idade e de condição física – o acesso à cultura?
Como se pode ver, as interrogações são intermináveis, têm inúmeros
significados, percorrem variadas direções. Mas se mantém sempre a dúvida
mais abrangente, que acolhe todas as demais: por que não à
acessibilidade?
Sabemos que, em muitos casos, para garantir a vida dos monumentos,
instituições culturais se instalam em edificações históricas tombadas.
Aqui, o estabelecimento da relação entre acessibilidade e cultura
torna-se ainda mais complexo, considerando que tais edifícios são frutos
de épocas passadas onde a inclusão não figurava entre os preceitos
legais daquelas sociedades.
Mas, com o passar da história, novos ventos sopram nas antes
definitivas e conservadoras teorias e práticas sociais. E isso também
acontece no que se refere aos ditames internacionais relacionados à
manutenção e conservação dos monumentos. Podemos ler, por exemplo, já em
1964, na renovadora Carta de Veneza que a preservação será sempre
favorecida por sua função útil à sociedade (desde que as alterações
necessárias para tanto não desvirtuem o autêntico de cada bem).
Passados pouco mais de dez anos, em 1976, na sua 19ª Sessão, reunida
em Nairóbi, sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e sua Função na
Vida Contemporânea, a UNESCO estabelece, entre os princípios gerais
daquela Carta, a necessária e harmoniosa integração dos monumentos na
vida coletiva da nossa época.
Aprofundando a relação entre acessibilidade e patrimônio, em 1990, o
arquiteto Antonio Cravotto - representando a Comissão do Patrimônio
Histórico, Artístico e Cultural do Uruguai, no 2º Seminário
Ibero-americano de Promotores e Formadores em Acessibilidade ao Meio
Físico, realizado em Montevidéu - apresentava seu entendimento sobre
essas questões, meio na contramão do muito que se vê ou ouve por aí
ainda hoje: em termos práticos, os bens patrimoniais só podem ser
salvaguardados se usados apropriadamente no presente [...]. Para tanto,
todos esses bens serão necessariamente afetados por modificações
espaciais e estruturais; incorporação de elementos, dispositivos,
sistemas e redes técnicas; inclusão de equipamentos e de sinalização.
Essas intervenções não possuem justificativa nem melhor nem diferente
das originadas pela eliminação das barreiras para pessoas com
deficiência.
Ou seja - e assim eu entendo a posição do professor Cravotto - ou os
bens patrimoniais se adaptam às exigências contemporâneas, ou eles vão
perdendo o seu significado, pela impossibilidade de uso. Isso poderá
ferir muitos ouvidos, mas, por si só, a transformação de uma residência
num museu já pressupõe inúmeras adequações. A instalação de modernos
aparelhos de ar condicionado em prédios históricos não seria um exemplo
definitivo e inconteste de adaptações permitidas, aceitas e até
festejadas? Mais exemplos? A substituição de superadas instalações
elétricas e hidráulicas ou de madeiras atacadas por cupins em telhados,
esquadrias e pisos. Só quando chegamos à questão da acessibilidade, tudo
se torna agressivo ao bem patrimonial. Por que dizemos não apenas à
acessibilidade? Pelo custo das adequações? Isso me parece uma questão
menor frente a tudo o que se admite gastar nas demais intervenções.
No caso específico das questões afetas ao projeto dos espaços,
tombados ou não, muitas vezes se ouve que as adaptações ferem o
edifício, pois têm aspecto desagradável; a bela escadaria de mármore não
poderá receber um corrimão, pois se entende que a inserção desse novo
elemento irá desfigurar a majestosa fachada. Diferente disso – e também
no que se refere à acessibilidade – projetos bem estudados geram bons e
qualificados espaços. O sempre citado acesso principal ao Museu do
Louvre, realização do arquiteto I.M.Pei, é apenas um dentre tantos.
Porém, muitas vezes, as adaptações dos espaços para que atendam aos
requisitos da acessibilidade são feitas meio que para se livrar do
problema. Aí, dificilmente as soluções deixarão de ser ruins ou
equivocadas.
Saindo dos edifícios e chegando às praças públicas dos centros
históricos – igualmente consideradas, e com razão, ambientes culturais –
esse posicionamento – o não apenas à acessibilidade – se mantém vivo e
forte: aceitamos a eliminação ou a substituição de árvores e arbustos, a
inserção de novos quiosques, bancos e lixeiras, a mudança no desenho
dos canteiros, a troca das antigas placas de sinalização. Mas, olhando
pelo foco da acessibilidade, aceitamos, quando muito, alguns rebaixos em
meio-fios. Nem pensar em macular as calçadas de pedra portuguesa com a
execução de um piso tátil, absolutamente necessário para que as pessoas
cegas ou com baixa visão possam aproveitar aquele espaço com a mesma
liberdade e autonomia de que dispõem todos os demais. Ou em estudar
alternativas melhores para pisos pouco confortáveis aos usuários de
cadeiras de rodas.
Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN) publica sua Instrução Normativa nº. 1, que também trata da
relação entre acessibilidade e patrimônio histórico: as soluções
adotadas para a eliminação, redução ou superação de barreiras na
promoção da acessibilidade aos bens culturais imóveis devem
compatibilizar-se com a sua preservação e, em cada caso específico,
assegurar condições de acesso, de trânsito, de orientação e de
comunicação, facilitando a utilização desses bens e a compreensão de
seus acervos para todo o público.
Dessa forma, tomando como base as palavras do professor Cravotto e também as instruções do IPHAN, cabe perguntar:
- Será possível respeitar o passado de uma edificação, desrespeitando
os direitos das pessoas, selecionando com nossas decisões de restauro,
quem pode ou não pode desfrutar de um patrimônio que é de todos?
- Assim como no caso dos acervos, será que não deveríamos pensar
primeiro nas necessidades dos seres humanos e depois nas dos edifícios?
Sabe-se que esse não é um trabalho fácil nem rápido. Teremos que,
para tanto, desconstruir nossos conhecimentos e também nossas práticas
para pesquisar, descobrir e edificar novas e boas soluções para todos,
mas, sem a menor dúvida, é chegado o momento de perguntar como
transformar também nossas instituições culturais em espaços acessíveis
para que, efetivamente, se constituam em motor de mudança na direção de
uma sociedade inclusiva.
Será que não seremos todos iguais na diversidade, se a infraestrutura
for adequada, se a tolerância desafiar os padrões, se o respeito romper
com os programas e projetos tradicionais, se a solidariedade voltar a
ser considerada como um valor por todos nós? Talvez seja essa uma
utopia, mas – e, para concluir, volto às palavras do professor Cravotto –
não será a utopia, corretamente entendida, a determinar a acertada
direção de um avanço social?
Por que não à acessibilidade?
Referências:
- BAUMAN, Zygmunt. CONFIANÇA E MEDO NA CIDADE. Jorge Zahar Editor. São Paulo. 1ª edição. 2009.
- JUNCÁ UBIERNA, José Antonio. El
binomio Accesibilidad y Patrimonio: a la búsqueda de un equilibrio
compatible. ACCESIBILIDAD Y PATRIMONIO – YACIMIENTOS ARQUEOLÓGICOS,
CASCOS HISTÓRICOS, JARDINES Y MONUMENTOS. Junta de Castilla y León,
España. 2007.
- LEMOS, Carlos A. C. O QUE É PATRIMÔNIO HISTÓRICO. (Coleção Primeiros
Passos - 3ª reimpressão da 5ª edição de 1987).São Paulo. Ed.
Brasiliense, 2006.
- MIGUEL, Ana Maria Macarrón. HISTORIA
DE LA CONSERVACIÓN Y LA RESTAURACIÓN: DESDE LA ANTIGÜEDAD HASTA FINALES
DEL SIGLO XIX. Technos Ed. Madrid 1995.
- PALLASMAA, Juahani. OS OLHOS DA PELE – A ARQUITETURA DOS
SENTIDOS.Bookman Companhia Editora/Artmed Editora S.A. Porto Alegre,
2011..
- SANTOS, José Luiz. O QUE É CULTURA. (Coleção Primeiros Passos - 14ª
reimpressão da 16ª edição de 1996).São Paulo. Ed. Brasiliense, 2008.
- TOJAL, Amanda Fonseca e outros. CADERNO DE ACESSIBILIDADE. REFLEXÕES
E EXPERIÊNCIAS EM EXPOSIÇÕES E MUSEUS. 1ª edição. Expomus. São Paulo.
2010.
Do livro:
Celebrando a Diversidade. Pessoas com Deficiência e Direito à Inclusão.
Edição 2010.
Organização: Flavia Boni Licht e Nubia Silveira.
Apoio:
Planeta Educação - em especial, Elisete Oliveira Santos Baruel e Érika de Souza Bueno.
Capítulo IX: Pela Expressão na Cultura, no Turismo e no Lazer
Artigo: Acessibiilidade e Cultura: Por que Sim? Por que Não?
Flavia Boni Licht (Porto Alegre)
– arquiteta, responsável pela concepção desta publicação e, em parceria com a jornalista Nubia Silveira, de sua organização.