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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Segundo o MEC, em 10 anos o número de matrículas de alunos com deficiência subiu 933,6%

A quantidade de matrículas de pessoas com deficiência na educação superior aumentou 933,6% entre 2000 e 2010. Estudantes com deficiência passaram de 2.173 no começo do período para 20.287 em 2010 – 6.884 na rede pública e 13.403 na particular.

O número de instituições de educação superior que atendem alunos com deficiência mais que duplicou no período, ao passar de 1.180 no fim do século passado para 2.378 em 2010. Destas, 1.948 contam com estrutura de acessibilidade para os estudantes.


No orçamento de 2013, o governo federal vai destinar R$ 11 milhões a universidades federais para adequação de espaços físicos e material didático a estudantes com deficiência, por meio do programa Incluir. O valor é quase quatro vezes maior em relação ao investimento deste ano, de R$ 3 milhões.

O Incluir http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=495&id=12257&option=com_content&view=article tem como objetivo promover ações para eliminar barreiras físicas, pedagógicas e de comunicação, a fim de assegurar o acesso e a permanência de pessoas com deficiência nas instituições públicas de ensino superior.

Até 2011, o programa foi executado por meio de chamadas públicas. Desde 2012, os recursos são repassados diretamente às universidades, por meio dos núcleos de acessibilidade. O valor destinado a cada uma é proporcional ao número de alunos.

Entre 2013 e 2014, o governo vai abrir 27 cursos de letras com habilitação em língua brasileira de sinais (libras) nas universidades federais, uma em cada unidade da Federação. Além disso, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) vai ofertar mais 12 cursos de educação bilíngue (português–libras) a partir do próximo ano.

Para dar suporte de recursos humanos aos novos cursos nas universidades federais, será autorizada a abertura de 229 vagas de professores e 286 de técnicos administrativos. As ações fazem parte do eixo educação do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência — Viver sem Limite, que envolve diversos ministérios para promover a inclusão, autonomia e direitos das pessoas com deficiência.

Fonte

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mais atenção e menos brinquedos


 Qual Dia das Crianças vamos dar para nossos filhos?

O Dia das Crianças se aproxima e começamos a perceber a profusão de apelos publicitários querendo transformar um produto qualquer no sonho de consumo da garotada. Nós, os pais, estamos na expectativa de sair às compras, cartão de crédito em punho e até dispostos a encarar mais um parcelamento para realizar o sonho dos nossos pequenos.

Contudo, mal conseguimos lembrar qual presente demos no ano passado. E quando lembramos, nem sabemos onde está. É certo que está em algum baú, em alguma caixa, gaveta ou sob as montanhas de novos brinquedos que nossos filhos ganharam desde o ano passado. Se não tiver sido algo significativo, ele já foi esquecido.


Se olharmos com cuidado vamos reparar que nossos filhos possuem brinquedos demais e brincam com dois ou três que são os favoritos. Estes são os significativos.

A verdade é que a quantidade de objetos pode ser proporcional à distância, à ausência e ao vazio. Como os nossos pertences de adulto, os brinquedos às vezes são usados para preencher vãos. A questão é que os objetos em si não suprem vazios, coisas não se tornam presença.

O Coletivo Infância Livre de Consumismo convida você a refletir conosco sobre o que realmente é capaz de fechar estes espaços. Queremos saber quais são as suas ideias para que, no Dia das Crianças, a gente consiga tirar o foco do consumismo. Use este espaço para compartilhar histórias de como sua família costuma comemorar o Dia das Crianças. Conte qual a importância sua e do presente neste contexto. Que atividades interessantes podemos fazer com nossos filhos?

Queremos saber se tantos objetos são mesmo necessários para fazer nossos filhos se sentirem homenageados nesse dia. O que nós, pais e mães, podemos proporcionar aos nossos filhos para que se sintam preenchidos pelo amor?

É o questionamento feito pelo Coletivo Infância Livre de Consumismo, que convida os pais a refletir sobre o que dar aos seus filhos nessa data comemorativa. Tudo isso porque a data se aproxima e já é possível perceber a profusão de apelos publicitários querendo transformar um produto qualquer no sonho de consumo da garotada.

O Coletivo explica que nessa data, os pais ficam ansiosos, na expectativa de sair às compras, com cartão de crédito em punho e até dispostos a encarar mais um parcelamento para realizar o sonho de seus pequenos. Contudo, mal conseguem lembrar qual presente deram no ano passado.


Para fazer dessa data um momento de aproximação entre pais e filhos, o Coletivo propõe a realização de um dia das crianças diferente: experiências do brincar criativo em família. Sendo assim, convidam os pais para uma postarem textos e imagens até o dia 12 de outubro com o tema “Dia das crianças: compartilhe brincadeiras”.

O objetivo da campanha éinspirar mães, pais e outros adultos importantes na vida das crianças a experimentarem um Dia das Crianças mais divertido, bem como registrar os momentos de brincadeiras de suas crianças -esse registro pode ser um texto, uma foto ou um desenho – ou vários, e usar o facebook ou o blog para falar sobre o assunto.

Para saber mais, acesse


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A construção da imagem da criança

Por Adriana Kortlandt *
no Observatório da Imprensa


Cada cultura constrói sua criança. E como a sociedade e a imprensa pensam na pauta sobre quem é hoje a criança retratada nas reportagens? Ela, com certeza, é bem diferente daquela das reportagens de anos atrás. E a mídia tem conseguido pensar e acompanhar isso? Qual a imagem, a descrição, o detalhamento desse personagem tão próximo e tão distante de cada um de nós? O repórter e o editor sabem falar sobre criança com a imagem de seus filhos real ou idealizada?



Este é o primeiro de três artigos que propõem uma reflexão sobre a infância que estamos construindo e falando/escrevendo sobre. “A construção da imagem da criança — Antes” apresenta brevemente alguns pilares da construção deste conceito no Ocidente: a criança, como era vista no medievo europeu, chegando até a idade moderna. “A construção da imagem da criança — Agora” aborda a construção da infância no Ocidente, no século 20, e “A construção da imagem da criança — Aqui”, a realidade brasileira, uma mescla de ambos.

Imagine que um certo Rafael pediu um Playstation 3 e um Xbox. Uma certa Marina, além da nova coleção de Monster High, quer trocar seu /laptop/. Juliana, educadora há vinte anos, começa a preparar a festa do dia das crianças em seu colégio, com bastante antecedência. Nada de festinha mambembe, improvisada, como em sua infância. A clientela contemporânea exige mais. Tem que ter tecnologia espalhada pelo pátio, blog para estimular a interatividade durante a preparação, filmagem e fotografia profissionais, quase uma superprodução.

*Pecado original*
Márcia e Pedro temem a chegada do 12 de outubro. O pequeno Bento lhes foi retirado muito cedo, mal completou quatro anos. Observar a barulheira gostosa das famílias passeando, ou almoçando nos restaurantes aos domingos, tortura. Outro filho? Com certeza, mas fica um buraco, a ausência do primogênito é insubstituível.

Conhecemos estas histórias. Gostando ou não, entendemos os códigos que regem as interações. Nem sempre foi assim. Cada cultura constrói os modelos que precisa para se desenvolver e, por sua vez, se orienta por eles. É um processo dinâmico, em permanente transformação.

Voltemos ao “Antes”:
Quem diria que a imprensa e a literatura mostrariam no século 16 que a infância acabava por volta dos sete anos?… “Perdi dois ou três filhos com amas, não sem pena, mas sem aborrecimento”, comentou certa feita o filósofo francês Michel de Montaigne. Mais ou menos na mesma época, século 16, relatava uma pessoa da boa sociedade inglesa que “tendo perdido dois de seus filhos, ainda lhe restava uma dúzia de treze”. Irritada, a neta de /madame/ de Rambouillet lhe disse: “Ora esta, minha avó, falemos de assuntos de Estado, porque eu já tenho seis anos.” É provável que ela não estivesse brincando, pois a maioridade das mulheres acontecia entre 11 e 14 anos, dependendo da época.

Apesar de nossa incredulidade ao lermos os comentários acima, uma coisa é certa: eles fizeram parte da visão de mundo, e de si mesmos de nossos antepassados. Apenas alguns séculos nos separam. Digo “apenas”, pois do ponto de vista evolucionista não há diferença alguma entre nós e eles. Culturalmente falando, entretanto, é como se vivêssemos em planetas distintos. Esperar que um ser humano de dez anos se comportasse como um adulto, não somente era comum, como normal. A criança era vista como um adulto em miniatura, privado de razão, palavras, discernimento e, por isto, merecedor de desconfiança, principalmente sempre que se expressasse de forma espontânea. Tal imagem da infância explica, em parte, a ausência de cuidados voltados para as necessidades da criança. “A medicina foi bem pouco atenta à conservação das crianças, e isto por indiferença e desconhecimento. (…) Milhares daqueles que poderiam se tornar úteis à sociedade perecem, sem que ninguém se digne a olhá-los”, critica o médico inglês, G. Buchan, no século 18.

Se retrocedermos mais ainda, e formos parar na época de Santo Agostinho, veremos que ele descreve a criança como ignorante, apaixonada e caprichosa: “Se deixássemos fazer o que lhe agrada, não há crime em que não se precipitaria”, escreve Agostinho em /A cidade de Deus/. Para ele, a infância é um forte testemunho da condenação pelo pecado original, a evidência de como a natureza humana, corrompida, se precipita para o mal. A dureza deste raciocínio talvez nos choque mais do que as palavras de Freud chocaram nossos avós.

*De que criança estamos falando?*
O fato de que todos nós nascemos criança, e o seremos até um determinado período é inegável, mas até quando e, sobretudo, quem é esta criança, isto sim, é uma construção social definida por nós, adultos.
A criança vista como adulto em miniatura, presente na Europa por tantos séculos foi mão de obra imprescindível em uma sociedade assolada por guerras frequentes, epidemias dizimadoras, e alto índice de mortalidade. Quem pudesse realizar qualquer trabalho, era destinado a tal, o mais rápido possível. Esta necessidade, associada à visão avassaladora da natureza humana como a personificação do mal, levou ao combate dos instintos a todo o momento. Assim, fazia sentido ensinar meninas, tão logo soubessem falar, frases como: “Lembremo-nos de nos despojarmos do homem velho e de nos revestimos do novo. Reconheço meu Deus, que a necessidade que tenho destas roupas é uma prova da corrupção que herdei de meus pais”. A ocasião para tal fala, é quando trocavam de roupa.
E se pudéssemos dar voz às essas crianças? É bem possível que elas nos tivessem relatado situações bem diferentes da perspectiva do adulto.

No fim do século 18, Rousseau publica seu romance Émile, e com ele começa a difundir a ideia de um ser humano essencialmente bom. Apesar do livro ter sido proibido e queimado em Paris e Genebra, abriu caminho para um outro olhar sobre a infância. “O homem nasce livre, e em toda a parte é posto a ferros”, foi uma de suas mais famosas frases.Pouco a pouco a criança foi sendo reconhecida como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias. A ideia do pequeno adulto nos parece hoje em dia, impensável.

Retrocedemos, avançamos? Qual a imagem de criança você perseguirá em sua próxima matéria? Neste sentido, a pauta do 12 de outubro surge como possibilidade para reflexões sobre a forma como entendemos e nos relacionamos com a criança nos dias de hoje, como construímos o sentimento de infância em nós e em nossas crianças.

* Psicóloga clínica, autora de Almagesto e Fios da memória

Fonte 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Criança autista ainda é vista como deficiente mental


Um mundo fragmentado e difícil de decifrar é o que as crianças autistas enfrentam. O transtorno de desenvolvimento, que atinge cerca de uma em cem crianças, é o tema do novo livro da psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva. Conhecida pela série de livros cujos nomes começam por “Mentes” (“perigosas”, “ansiosas”, entre outros), ela lança agora “Mundo Singular”, em parceria com o também psiquiatra Leandro Thadeu Reveles e a psicóloga Mayra Bonifacio Gaiato (Editora Fontanar, 296 págs., R$ 39,90). Com capítulos permeados por casos reais que passaram pela equipe da psiquiatra, o livro traz o didatismo de praxe nas obras de Ana Beatriz. Esclarecer o público quanto às grandes variações que existem dentro do espectro do autismo é um dos objetivos dela. “Essas crianças ainda são vistas como débeis mentais, como limitadas. Isso é um grande erro.”

Entrevista
Qual é a reação dos pais ao saberem que o filho tem autismo?
É um momento de desespero, de luto, não por aquela criança que nasceu, mas pela que eles esperavam que ia nascer. É preciso ter cuidado com promessas de cura. O que podemos oferecer são estratégias com embasamento científico, viver juntos as tristezas e comemorar os avanços.

Como está a detecção do problema no país?
O diagnóstico no Brasil é pouco realizado. As crianças com autismo ainda são tidas como débeis mentais e ponto, com limites intelectuais e retardo mental mesmo. Isso é um grande erro. O autismo é um transtorno do desenvolvimento do sistema nervoso que traz uma gama de comportamentos diferenciados. Por isso falamos do espectro autista, que vai desde casos leves até os muito graves.

Como se define o transtorno biologicamente?
Essa criança nasce com um sistema nervoso central diferente, e essa diferença é na comunicação entre os neurônios, que é mais lenta e acontece menos. Por isso ela vê o mundo em partes, e não como algo global. Se você olha para o meu rosto, vê nariz, olhos, boca e já sabe: é a Bia. É muito rápido. O autista vê nariz, orelha e vai se prendendo nos detalhes. Isso causa dificuldades de socialização.
Mas essas crianças têm muito afeto, diferentemente do que se pensa. Por muito tempo, o autismo foi chamado de psicopatia infantil, porque a dificuldade de socialização parece uma indiferença com o outro, e não é.

Quais as estratégias para melhorar esses relacionamentos?
O autista tem pensamento concreto, você precisa criar manuais para ele. É preciso treinar o cérebro para abrir conexões que ele não tem. A medicação é usada para que a criança fique menos hiperativa e mais atenta a esses ensinamentos.
A maior descoberta na neurociência nos últimos 20 anos é a neuroplasticidade, a gente muda o cérebro de dentro para fora e de fora para dentro. Os autistas têm o sistema emocional funcionante. Mas levam um tempo maior para manifestar a emoção.
E nos casos mais graves também há dificuldades de linguagem. Por isso é comum que crianças com graus mais severos de autismo usem as pessoas como instrumento: ela pega você e leva até a geladeira para pegar o que quer.

Por que muitos autistas são tão dependentes de rituais?
O mundo é um excesso de estímulos para eles. Se o autista domina algo, como o caminho da casa até a escola, isso é ótimo para ele. Se você mudar alguma coisa, causa desespero. Qualquer mudança deve ser negociada.
Boa parte dos autistas é muito inteligente, muitos se alfabetizam sozinhos. Eles estudam e vão a fundo nos assuntos. E 10% são savants, têm uma ilha de conhecimento extraordinário cercada por um mundo de deficiências. São aquelas criaturas que tocam piano sem nunca ter tido aula, mas não conseguem trocar a roupa sozinha. Um autista é incapaz de mentir e de entender ironias. Por isso eles gostam de bichos, porque eles têm poucas expressões muito simples.

Por que é tão importante detectar o problema cedo?
O diagnóstico feito até os três anos é um divisor entre uma vida funcional, que não vai ser perfeita, mas em que a pessoa vai poder se cuidar, ter uma articulação com as pessoas, e uma vida em que isso não acontece. Pediatras bem informados podem detectar o problema facilmente.
Bebê que se incomoda em ser amamentado é um sinal, assim como demorar para falar, não olhar para os pais quando falam, andar na ponta dos pés se está nervoso, não olhar nos olhos. Tudo isso é muito precoce. Um investimento nos pediatras traria diagnóstico em 100% dos casos antes dos dois anos, o que seria revolucionário para o prognóstico das crianças.
Os autistas são estrangeiros onde quer que estejam. Nosso mundo para eles é assustador. Mas nós podemos buscá-los. Quem trata esse tipo de alteração precisa gostar muito de gente. É preciso exercitar a solidariedade.
E isso faz bem para todos. Para mim, faz. Cada beijo que ganho de um autista é um grande troféu.

O QUE FAZER SE SEU FILHO TEM AUTISMO

1. Informe-se
Fontes confiáveis de informação são sites de ONGs como a brasileira Autismo e Realidade (WWW.autismoerealidade.org) e a americana Autism Speaks (WWW.autismspeaks.org)

2. Estimule o autocuidado
É importante incentivar a criança a tomar banho, trocar-se e se alimentar sozinha, para ter mais independência.

3. Dê tarefas a ele
Peça ao seu filho que ajude em tarefas domésticas. Divida uma tarefa grande, como arrumar o quarto ou pôr a mesa, em ações pequenas. Assim, elel pode fazer uma coisa de cada vez.

4. Faça refeição em família
É importante reunir a família para trocar experiências ocorridas durante o dia e estimular a convivência. Para essa atividade, que deve ocorrer ao menos uma vez por dia, a refeição é uma boa hora.

5. Crie uma rede de contatos
Manter convivência com outras famílias com filhos autistas é bom para gerar troca de experiências.

6. Incentive a convivência social
Matricule seu filho em clubes e aulas onde ele possa exercer habilidades sociais. A família deve ajudar na integração.

7. Seja persistente
Em caso de dificuldade da criança na escola, insista, converse com os professores e procure novas abordagens que facilitem a compreensão.
Folha de São Paulo, 9 de junho de 2012.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Encontrando palavras para falar sobre deficiência com crianças

Por Amy Julia Becker, autora de A Good and Perfect Gift: Faith, Expectations and a Little Girl Named Penny

Tradução Felicia Jennings-Winterle

William chegou em casa da escola algumas semanas atrás e disse “Mãe”. Ele falou do jeito que ele fala quando tem algo importante para me dizer. E disse de novo: “Mãe. Minha amiga Ashley não ouve bem. E ela grita”.



William tem 3 anos. Ele vai à uma pré-escola pública, e está em uma classe integrada, o que quer dizer, uma turma onde crianças típicas aprendem e brincam com crianças que tem alguma deficiência.  Há três anos, a irmã mais velha de William, Penny, estava na mesma classe, mas ela entrou  com um programa educacional individualizado (“I.E.P.,” Individualized Education Plan). Penny tem Trisomia 21, também conhecida como síndrome de Down, e este terceiro cromossomo tem influencia quase todos os aspectos do desenvolvimento dela.

Ela usa aparelho ortopédico para dar apoio à seus pés chatos e tornozelos fracos. Quando ela estava na pré-escola, usava a língua de sinais, além da fala para se comunicar. Ela fazia terapia ocupacional, fono e fisioterapia como parte de sua experiência em sala de aula. Mas o fato de eu ter uma filha com deficiência, não quer dizer que eu saiba como falar sobre deficiência com meus filhos.

Quando a Penny nasceu, eu me deparei com um labirinto de palavras que nunca tinham tido importância para mim – anormalidade, deficiência, gravidez de alto risco, aconselhamento genético, necessidades especiais. Isso se tornou mais fácil com o tempo. Eu comecei a usar a linguagem da “pessoa primeiro”, me referindo a minha bebê como, “bebê com síndrome de Down”, ao invés de “bebê Down”. Eu substitui “normal” por “típico ou sem deficiência” quando precisava compará-la a outras crianças. Em minhas gestações seguintes, eu falava sobre a “probabilidade” de ter outra criança com síndrome de Down, ao invés do “risco”.

E com o tempo, as palavras se tornaram mais do que tentativas politicamente corretas para apoiar minha nova identidade de mãe de uma criança com deficiência. Com o tempo, as palavras se tornaram realidade. Eu realmente vi Penny como primeiro uma criança, e a síndrome de Down apenas como parte de sua descrição, um característica secundária. Eu realmente comecei a acreditar que indivíduos com deficiência não são pessoas que merecem pena, ou pessoas que precisam de ajuda, mas pelo contrário, que são seres humanos exatamente como eu.  Nossas particularidades são diferentes, mas eu comecei a entender que todos nós temos limitações e pontos vulnerávies que precisam de ajuda, e que todos temos possibilidades para alegrias, relacionamentos e doação.

Fiquei super feliz quando William foi aceito através de sorteio em uma pré-escola integrada. Mas fiquei pensando se eu conseguiria colocar palavras em sua experiência. Pensei se eu seria capaz de ajudá-lo a ver Ashley (e Carlos, e Megan e Landon) como seus coleguinhas. Fiquei pensando se eu seria capaz de falar sobre deficiência de uma forma que fosse honesta e positiva, de uma forma que construísse pontes, ao invés de criar categorias e julgamentos. Então quando William me contou que Ashley não escutava bem e gritava, eu respirei fundo.

Eu disse, “talvez ela ainda não tenha aprendido como ouvir”.
Ele abanou a cabeça.
E daí perguntei, “No que Ashley é boa?”
Ele abaixou a cabeça. “Ela é boa de jogar jogos e de correr”.
“No que você é bom?”
“Ouvir”
“ O que é difícil para você?”
“Colorir”

Foi o fim da conversa. William tem falado sobre a Ashley desde então, mas somente porque ele me conta coisas sobre sua amiga – que eles pegam o ônibus juntos, fazem de conta que cozinham juntos, que ele gostaria de ter um quadro cheio de adesivos como o dela. Até onde William pode entender, Ashley é somente outra menina em sua classe. Algumas coisas são difíceis para ela. Algumas coisas ela faz muito bem, assim como ele.

Um dia, William vai se dar conta de que muitos aspectos de nossa cultura – da linguagem à legislação – erguem muros entre crianças como ele e crianças como Ashley. Mas eu espero que crescendo com uma irmã que tem síndrome de Down e indo à escola com meninos e meninas que enfrentam desafios diferentes dos dele, possa abrir seus olhos, e seu coração, para entender que todos têm em comum serem humanos. Eu espero que ele cresça com a habilidade de ver além dos rótulos, de acreditar que ele tem algo a oferecer a todos que ele encontrar, e que ele também tem a receber destas pessoas. Eu espero, pelo bem das duas crianças, que ele e Ashley continuem amigos.

Fonte

sexta-feira, 22 de junho de 2012

406 filhos

Dela, são seis. Mas somando os que trata e se dedica como se filhos fossem, passa dos 400. Desde cedo, a médica Fátima Dourado aprendeu a transformar sua dor em um caminho que mudou não só a vida de seus filhos autistas, mas de milhares de crianças Brasil afora

A médica Fátima Dourado e seus filhos da Fundação Casa da Esperança

“Sempre gostei dessa possibilidade que o ser humano tem de reinventar a vida”. A frase que sai da boca da médica Fátima Dourado é a mesma que desenha sua trajetória. Em 57 anos de vida, ela conseguiu fazer do que lhe encanta na literatura sua própria história. Fátima se reinventou ao transformar a dor das rejeições sofridas pelo primeiro filho autista, Giordano Bruno, em um caminho de vida – dela mesma e de outras centenas de mães que têm seus filhos atendidos pela Fundação Casa da Esperança.

Mãe de seis filhos – dois dos quais têm autismo – Fátima se deparou com o transtorno numa época em que ninguém sabia do que se tratava. Na psicanálise, a teoria era de que os autistas eram crianças normais que estavam se refugiando em seu mundo porque tinham um problema de vínculo com a mãe, que chegaram a ser definidas pelo termo “mães-geladeiras”. “Como era o que tinha na época, teve um tempo que eu cheguei a duvidar do meu amor. Onde eu tava amando errado para ter crianças tão lindas que não conseguiam desenvolver a fala?”, lembra Fátima.

Nela, não estava o problema e, sim, a solução, ou, pelo menos, a esperança. Quando viu o filho Giordano, hoje com 32 anos, ser rejeitado pela escola por estar dando muito trabalho e a instituição não ter profissionais treinados para atender àquele tipo de adolescente, Fátima decidiu criar a própria escolinha. De oito alunos iniciais, a então pequena escola para crianças com autismo hoje é uma referência nacional no tratamento do transtorno, onde 400 crianças têm assistência total e outras milhares recebem atendimento ambulatorial.
Além de não ter sido em vão, a luta de Fátima não foi solitária. Hoje, de tanto ver a dedicação da mãe, praticamente toda a família vive em torno do autismo. Fora Giordano e Pablo, 28, que foram a razão da médica ter mergulhado nessa luta, o filho mais velho, Alexandre, 34, além de ter casado com uma das mães fundadoras da Casa da Esperança que já tinha uma filha com o transtorno, é um militante na defesa dos direitos das pessoas com autismo.

Já Gustavo, 30, utilizou a profissão para implantar oficinas de música na fundação, da qual é o atual vice-presidente. Além disso, por um desejo compartilhado com a esposa, ele adotou Dudu, 7, que também tem autismo. “Nessa hora, eu tive que mudar meu discurso de que ninguém escolhe ser mãe de autista. Minha nora escolheu ser mãe de um”, orgulha-se. “O autismo não deu só dificuldades e desafios à nossa família, ele trouxe grandeza para esses meninos. Reduziu o preconceito com outras formas de ser”, completa.

A luta deu a Fátima também a oportunidade de reconstruir sua vida amorosa. Na própria instituição, conheceu o atual marido, o psicólogo Alexandre Costa. Dessa relação, vieram Gabriel, 13, e Maria Teresa, 6, que entrou na vida de Fátima quando ela já havia chegado aos 50. “Foi um presente que a vida me guardou na maturidade. Se houve um tempo em que achava que meu amor era azedo, foi legal que a vida tenha me dado a chance de curar uma menina do autismo com esse amor”, reflete. “A felicidade é uma coisa que eu nunca busquei fora. Não sei o que é inveja. Eu gosto da minha vida, da minha história, dos meus filhos, eu gosto de ser nordestina, de estar em Fortaleza. Eu tô feliz, Deus me colocou no lugar certo, na família certa”, comemora. (Naara Vale)

RAIO X DA MÃE
Fátima Dourado
Idade: 57
Profissão: pediatra e psiquiatra
Filhos: Alexandre, 34; Giordano, 32; Gustavo, 30; Pablo, 28; Gabriel, 13; Maria Teresa, 6.
Ser mãe é: “É abrir a cabeça e o coração para ajudar outra pessoa no seu desenvolvimento, adotar uma pessoa do jeito que ela é, com todas as suas possibilidades. Ser mãe, biológica ou não, sempre tem seu lado de adoção. É sempre uma busca de equilíbrio porque não tem uma fórmula pronta entre a proteção e o respeito às escolhas do indivíduo.”

Fonte
Oferecemos arquivo de textos específicos, de documentos, leis, informativos, notícias, cursos de nossa região (Americana), além de publicarmos entrevistas feitas para sensibilizar e divulgar suas ações eficientes em sua realidade. Também disponibilizamos os textos pesquisados para informar/prevenir sobre crescente qualidade de vida. Buscamos evidenciar assim pessoas que podem ser eficientes, mesmo que diferentes ou com algum tipo de mobilidade reduzida e/ou deficiência, procurando informar cada vez mais todos para incluírem todos.