domingo, 29 de novembro de 2015

Sapato com GPS localiza idosos doentes perdidos

Consultora de Inclusão, Marta Gil, Compartilha

Repasso referência de vídeos sobre Educação Inclusiva:

Os perigos da gordura na barriga

Os perigos da gordura na barriga
A obesidade e o sobrepeso estão associados a uma série de doenças metabólicas e cardiovasculares e o crescimento de seus índices na população nos últimos anos tem preocupado autoridades de saúde em todo o mundo.
Pessoas obesas apresentam uma maior taxa de mortalidade por qualquer causa e também por doenças cardiovasculares. Tanto a obesidade quanto o sobrepeso são determinados pela avaliação do índice de massa corporal (IMC). Qualquer pessoa que saiba seu peso e altura pode calcular facilmente o seu IMC em centenas de sites na internet. Muita gente já sabe que um IMC desejável não deve passar de 25. As pessoas que estão na faixa de IMC de 25 a 30 são consideradas como tendo sobrepeso e as que têm um IMC acima de 30 são obesas. Resultados de estudos epidemiológicos realizados na década de 90, e utilizando dados de um grande número de indivíduos, demonstraram que o risco de doenças e o risco relativo de morte vão aumentando proporcionalmente a partir do IMC em torno de 25. Existem várias relações fisiopatológicas que explicam como o aumento do depósito de gordura pode produzir uma diversidade de doenças.
A noção de que, além do IMC, a distribuição da gordura corporal é um importante fator de risco para diversas doenças também está bem estabelecida. Pessoas obesas com excesso de gordura abdominal (na cintura) têm maior risco para diabete, hipertensão, dislipidemia e doenças do coração, do que os obesos que tem a gordura localizada predominantemente na parte inferior do corpo (quadril). O que ainda não estava claro é se pessoas com IMC normal, abaixo de 25 (portanto sem sobrepeso ou obesidade), mas com uma "barriguinha" saliente (chamada de obesidade central), têm um maior risco para doença cardiovascular ou morte.
A resposta para esta questão veio no início de novembro com a publicação online, na revista científica Annals of Internal Medicine, de uma pesquisa que estudou por um período de 14 anos mais de 15 mil pessoas com idade de 18 a 90 anos. Os parâmetros investigados foram o IMC e a presença de obesidade central, que é obtida pelo resultado da divisão entre a circunferência abdominal e a circunferência do quadril.
A análise dos resultados da pesquisa revelou que pessoas com um IMC normal, abaixo de 25, porém com obesidade central (índice maior que 0,90 para homens e maior que 0,85 para mulheres), têm um maior risco de mortalidade total que as pessoas com IMC normal e sem obesidade central. Mais do que isso, este grupo de "magros barrigudinhos" têm um risco maior do que as pessoas com sobrepeso e obesas (IMC acima de 25 e 30, respectivamente) que, no entanto, apresentam a razão cintura quadril normal (menor que 0.90 para homens e 0,85 para mulheres).
Para exemplificar, os pesquisadores colocaram a situação de um homem com IMC de 22 kg/m2 e obesidade central (índice cintura/quadril acima de 0,90). Este indivíduo tem um maior risco de mortalidade que um homem com mesmo IMC sem obesidade central, e maior também que um indivíduo com sobrepeso ou obeso, porém, com índices cintura/quadril menores que 0,90.
Algumas pessoas têm propensão a fazer um depósito de gordura no abdômen, mesmo não sendo obesas. A gordura abdominal secreta substâncias pró-inflamatórias no organismo que predispõe à formação de uma série de situações potencialmente nocivas, principalmente ao sistema cardiovascular.
As implicações deste estudo são importantes, pois muitas vezes a pessoa magra se acha protegida contra doenças metabólicas e cardiovasculares, o que pode não ocorrer se ela apresenta obesidade central.
A medida da relação cintura/quadril passa a ser um fator indispensável, talvez mais importante até que o próprio IMC, na avaliação de risco para determinadas doenças. 
Autor: Equipe ABC da Saúde
Referência Bibliográfica

Salão na Itália ensina mulheres cegas a cuidar da própria beleza sozinhas

by Ricardo Shimosakai
Durante encontros, de cerca de 3 horas, cada assistente se dedica a duas alunasDurante encontros, de cerca de 3 horas, cada assistente se dedica a duas alunas
A ideia nasceu da amizade entre a proprietária do centro de beleza, Tiziana Ghislotti, com uma mulher com deficiência visual.
"A aparência conta. E muito. Afinal, vivo em um mundo de pessoas que enxergam", diz a deficiente visual Florinda Trombetta.
Um salão de cabeleireiros em Milão, a capital da moda italiana, oferece cursos de beleza para mulheres cegas que querem cuidar da própria aparência sozinhas. A ideia nasceu da amizade entre a proprietária do centro de beleza, Tiziana Ghislotti, com uma deficiente visual.
“Um dia eu estava na academia de ginástica secando meus cabelos e a Tiziana se aproximou oferecendo ajuda para enxugá-los. A princípio fiquei um pouco ofendida, porque apesar de ser cega, posso usar o secador sozinha. Mas logo depois, a sua naturalidade e simpatia me conquistaram”, conta à BBC Brasil Florinda, de 34 anos, funcionária de uma Consultoria de Recursos Humanos.
Meses depois, enquanto dava conselhos à amiga sobre como escovar os cabelos em casa, Tiziana percebeu que poderia ser útil a outras deficientes visuais. A partir daí, ela elaborou os cursos gratuitos realizados no próprio salão, duas vezes ao mês, depois do expediente.
“Não é um trabalho fácil, é um desafio para mim e para as minhas assistentes. Até conhecê-las, a gente não fazia ideia das inúmeras dificuldades que as pessoas cegas enfrentam cotidianamente para realizar até mesmo os gestos mais simples. Mas no final, quem ganha somos nós, que passamos a conhecer uma realidade diferente”, afirma Tiziana, que é proprietária de um dos salões de beleza mais movimentados da cidade.
Durante os encontros, que duram cerca de três horas, cada assistente se dedica a duas alunas. As instruções para penteados e maquiagens são personalizadas, com base no tipo de cabelo e de pele, biotipo, estilo de vida e, naturalmente, gosto pessoal. “Elas se cuidam muito, querem se informar sobre os produtos, sobre a moda. São mulheres que trabalham, são dinâmicas e esportivas. É importante que elas tenham em quem confiar”, afirma Tiziana, que tem 40 anos de profissão.
A aparência conta
Para Florinda, que perdeu a visão aos 20 anos por causa de uma doença degenerativa, é importante manter um bom aspecto.
“Sei que todos me olham porque sou diferente, porque caminho com uma bengala branca. E já que sou constantemente alvo de atenção, quero que me vejam não apenas como deficiente, mas como alguém de boa aparência. Afinal, vivo em mundo de pessoas que enxergam.”
Funcionárias de salão de beleza ajudam deficientes visuais a se maquiarFuncionárias de salão de beleza ajudam deficientes visuais a se maquiar
Ela afirma que estar bem penteada e com as mãos cuidadas a fazem sentir-se bem. “No curso aprendi um segredo precioso para enxugar os cabelos com o secador sem que eles se armem. E funciona realmente. As sugestões que nos dão são muito válidas. Agora, quando chego ao escritório, os colegas notam e elogiam cada pequena diferença no meu visual.”
Florinda passou a praticar esportes depois de perder a visão. Ela e o marido, com quem é casada há 9 anos e que também é cego, participaram da Paraolimpíada de Londres, em 2012. Ele, como campeão de beisebol, ela de canoagem. Recentemente, Florinda aprendeu a esquiar. “Faço descida livre. É adrenalina pura”.
“Sou muito esportiva e não abro mão do que posso fazer com autonomia para ficar mais bonita, como pentear-me e vestir-me bem. E apesar de ter um pouco de dificuldade em me maquiar, uso um pouco de base, rímel e um brilho nos lábios.”
Confiança
Também para Giovanna Gossi, de 49 anos e cega desde a infância por causa de um glaucoma congênito, a aparência conta. E muito. “Para quem não pode se ver no espelho, a preocupação com o próprio aspecto é ainda maior”, diz a telefonista de um instituto financeiro.
“Não vejo meu rosto e, portanto, tenho que confiar nas pessoas”.
No curso, além de técnicas específicas para escovar ou amarrar cabelos finos, ela recebeu sugestões de maquiagem e conselhos para substituir alguns cosméticos por produtos mais fáceis de serem utilizados, como trocar a base líquida pelo pó compacto.
“Nas aulas, desenvolvemos um método que agradou a todas. Basta passar o pincel no estojo de pó três vezes e iniciar a aplicação abaixo das bochechas, de dentro para fora, duas vezes em cada lado do rosto, depois espalhar pela testa, descer passando pelo nariz até o queixo, sem deixar nenhuma parte de fora, e esfumaçá-lo no início do pescoço”, ensina.
Combinando cores
Também em Milão, Giovanna e outras deficientes visuais fizeram um curso com uma personal shopper de quem receberam dicas de como comprar roupas adequadas a cada fisionomia e estilo, além de aulas de postura e lições sobre como caminhar de salto alto. “É claro que quando você corre para pegar o ‘tram’ (espécie de bonde sobre trilhos, comum em Milão), vai tudo por água abaixo”, brinca.
Exigente e atenta às novidades da moda, Giovanna recorre a uma amiga na hora de ir às compras e combinar cores. “Não posso usar somente preto e branco porque são cores que, juntas, ficam sempre bem. Há muitos outros tons que podem ser misturados”.
E embora o namorado não seja deficiente visual, Giovanna diz não confiar no seu gosto.
“Jamais vou sair para comprar roupas com ele”, conta. “Qualquer coisa que eu vista, até uma camisa de homem, o comentário dele é sempre o mesmo. ‘Belíssima!’”.
Fonte: G1

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Gilberto Gil e o envelhecer

Escrito por  Luciana H. Mussi, da Redação Portal
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Eis que, no último domingo (27/11), encontramos Gilberto Gil na coluna de Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo) falando sobre a velhice: "A memória não é tão aguda, a gente não lembra mais de tanta coisa como antes. Tem muitas modificações de energia, de disposição geral. Pode ser sentido como perda, mas também como iniciação para um outro modo do ser".
É estranho porque pensamos nos nossos ídolos, sempre, eternamente jovens e, um dia, um tanto surpresos, percebemos que eles envelhecem e com isso nós também. Parece que eles funcionam como uma espécie de espelho de nós mesmos, nos contando sobre a passagem do tempo, mergulhos em acontecimentos que, há muito, julgávamos perdidos. Uma música, um gesto, um cheiro e tudo volta, em verdadeiras avalanches de emoções. Ver Gil falando e vivendo a velhice dessa maneira energética, como uma fase "iniciática, é incrivelmente reconfortante. Nos convence que o mesmo pode acontecer conosco, e por que não?
Estando prestes a completar 70 anos (o que acontecerá em junho de 2012), ele diz que já está "vivendo a idade". E vê "novos ganhos, novas aquisições, novas configurações". Compara a juventude e a maturidade ao ruído e ao silêncio.
"Quando o ruído desaparece, deixa um vácuo, que é seguido pelo silêncio. E este preenche tanto quanto o ruído preenchia. É algo de outra natureza, que se constitui também como plenitude", diz ele ao repórter Diógenes Campanha. "Certos aspectos da atividade cerebral ganham outra forma de se apresentar. Fisicamente, não me sinto debilitado. Resumindo, estou gostando da velhice."
Que efeito é este que o silêncio proporciona a certas pessoas? O mestre da atmosfera silenciosa, o falecido cineasta sueco Ingmar Bergman (1918 – 2007), não se considerava uma pessoa solitária. A Ilha de Farö, local onde ele passou os últimos anos de vida, não representava a solidão, mas o prazer de estar com ele. É apenas isso – o maravilhoso mundo do silêncio. Gil, de certa forma, sente da mesma maneira: a ausência de ruídos – o silêncio como um estado delicado e pleno de ser e viver as coisas.
E neste rememorar de todos os anos vividos por ele, ou ao menos aqueles registrados em uma foto, um bilhete, um desenho, um vídeo, uma letra, uma partitura, serão apresentados ao público. Segundo a reportagem, este acervo digital do artista será disponibilizado através do site (www.jobim.org/gil/) mostrando mais de 30 mil documentos de sua vida.
Gil conta como o rico e extenso material foi reunido ao longo dos anos: "Isso vem sendo construído há 15, 20 anos, quando a Flora [referindo-se a sua esposa] mandou encadernar minhas anotações. Ela vinha arquivando sistematicamente todo o material, correspondências, comandas". O acervo foi organizado pelo Instituto Tom Jobim, que já fez o mesmo com a obra do maestro, além de Dorival Caymmi e Chiquinha Gonzaga. O patrocínio é do projeto Natura Musical.
"O acervo contém uma parte relativa à vida pública, mas também a parte pessoal, como é a própria vida de todo mundo", diz Gil. "É um acesso desejado por nós, uma invasão benigna. Com Twitter e Facebook, é tão comum mostrar sua vida às pessoas que esse arquivo estático não chega a ser novidade".
Gil chega aos 70 anos em paz com a mídia, com as eventuais invasões, que ele define como "benignas", e bem resolvido com sua produção, vida afetiva e lembranças. Ele se revela intimamente, sem reservas e orgulhoso pelo caminho traçado.
A foto de 1992 mostrando Gil rodeado por Flora, com quem está casado há 31 anos, e as três ex-mulheres, Belina de Aguiar, Nana Caymmi e Sandra Gadelha mostra sua forma, especial, de se relacionar, principalmente com as mulheres. Era o seu aniversário de 50 anos. "Minha relação com elas se deve muito à gestão da Flora. Quando chegou, ela compreendeu que isso era uma grande família da qual passou a fazer parte". A filha Preta já disse que vê o pai como um rei africano, que tem as mulheres em volta e delega funções à prole – os príncipes.
Ele diz: "Não é de todo equivocada. Deve ser genético". Conta que quando tinha "dois, três anos", a mãe lhe perguntou o que queria ser na vida. "Falei que seria 'musqueiro', minha corruptela infantil para músico, e pai de menino". E a vida lhe foi bem generosa: gerou oito filhos em três casamentos.
A primeira foto da qual Gil tem lembrança foi tirada por ele aos quatro anos. Foi levado pelos pais para um estúdio em Salvador. Ele lembra: "As máquinas não eram portáteis, ficavam em uma sala. Era uma coisa meio ameaçadora, como ir ao consultório do dentista". O estúdio era "muito esmerado. Tinha um doce, um suco, pra gente ficar relaxado".
Voltou outras vezes ao local para cliques ao lado da irmã, Gildina. "Éramos muito ligados. Lembro da gente amassando barro no fundo do quintal. Moldávamos tijolos com caixa de fósforos e fazíamos pequenas edificações. E eu participava com ela das brincadeiras de boneca. Fazia comida e roupas". Foi com ela que Gil formou a primeira dupla musical, aos 11 anos. Apresentavam-se em concursos de cantores, ganhando prêmios como pinguins de geladeira, arranjos de flores e, às vezes, dinheiro. "Seriam cinco, dez reais hoje em dia".
E como não podia deixar de ser, as letras de música e repertórios de shows dividem o site com política. Lula, Ciro Gomes, ACM, Collor e ideias, visões particulares do cantor/artista.
Com relação ao ex-senador Antonio Carlos Magalhães (ACM), morto em 2007, a reportagem conta: ACM aparece numa "carta aberta a um velho triste como eu". Era resposta a uma "carta queixosa" de ACM. "Ele disse que, ao contrário de mim, meu pai sempre foi correligionário fiel a ele". Gil diz ter "a impressão" de que o desentendimento ocorreu porque discordou de uma crítica de ACM à nomeação de Pelé como ministro do Esporte no governo FHC. "Nossas divergências eram em questões técnicas, não afetivas".
Como Ministro da Cultura, Gil recebeu carta de ACM pedindo apoio a um livro sobre as igrejas da Bahia, "porque sei que os assuntos de nossa terra têm não só sua boa vontade como também a prioridade", disse ACM. Um dia ele disse que eu precisava olhar mais a Bahia. Tinha uma série de projetos lá e fiz uma lista rápida. E ele disse: "Precisa olhar ainda mais".
É natural que um homem como Gilberto Gil tenha tanto para lembrar e contar. Viveu como qualquer um de nós, teceu seu próprio caminho e se fez, coerente com suas ideias e eventuais desconfortos.
Gil, um homem que navegou por muitos mares: viveu a arte, fez política, sentiu a religião e amou. Talvez, Gil já seja um "Mensageiro entre Dois Mundos" [em referência ao documentário sobre a vida e obra do fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger], o mundo daqui, que conhecemos e o de lá, para onde caminhamos.
Referências
BERGAMO, M. (2011). Aos 69 anos, Gilberto Gil diz que gosta da velhice. Disponível emhttp://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1012051-aos-69-anos-gilberto-gil-diz-que-gosta-da-velhice.shtml. Acesso em 27/11/2011. FOTO: imagem do arquivo pessoal de Gilberto Gil, extraído do site:http://www.gilbertogil.com.br/sec_fotos.php
http://www.portaldoenvelhecimento.com/velhices/item/2576-gilberto-gil-e-o-envelhecer

SUS: “Brasil nunca investiu para viabilizar plenamente o acesso à saúde”. Entrevista especial com Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro

“O Brasil, até o ano passado, era a sétima economia do mundo e o 72º em investimento em saúde. Não há gestão eficiente que seja capaz de entregar serviços de excelência sem o financiamento adequado”, afirmam os médicos.
Foto: prsouza.wordpress.com
“O setor privado conta com quase 60% do que é gasto anualmente em saúde para dar conta da assistência de cerca de 25% da população, enquanto o pouco mais de 40% de recursos restantes deve dar conta da assistência dos demais 3/4 em situações ordinárias, além de atender os que têm planos de saúde em tratamentos que os planos se isentam de cobrir”, dizem Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.
Segundo os médicos, o estímulo do Estado brasileiro ao setor privado de saúde ocorre desde meados da década de 1960, via incentivos fiscais. “Até hoje incentiva, através de desconto no imposto de renda de despesas com saúde e isenção de impostos de serviços classificados como filantrópicos, entre eles os muitos dos principais hospitais particulares do país. Parte deste incentivo se deu com objetivo de utilizar os serviços de uma rede já instalada, mas sua intensificação tem a ver com o financiamento de campanhas para os legislativos e executivos”, afirmam.
Na avaliação dos médicos, atualmente várias propostas políticas tentam desmantelar o Sistema Único de Saúde, como a Proposta de Emenda Constitucional – PEC 451, de autoria do deputado Eduardo Cunha, que “inclui, como garantia fundamental, plano de assistência à saúde, oferecido pelo empregador em decorrência de vínculo empregatício, na utilização dos serviços de assistência médica” e a PEC 358/13, conhecida como PEC do ‘Impositivo’, “que garante aos parlamentares disporem de 15% do orçamento da saúde, a ser destinado a partir de emendas (...). São diversas evidências de que existem iniciativas institucionais de favorecimento do setor privado ao custo do desmantelamento do SUS”, pontuam. Segundo eles, “há um campo político, em torno da liderança de Eduardo Cunha, com uma agenda que pode ter sérios efeitos no SUS, por exemplo, pela limitação do atendimento de mulheres vítimas de estupro, que inclui a possibilidade de aborto legal. A proposta de Cunha é que se exija o boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, retrocedendo numa garantia que data da década de 1940”.
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro reforçam que atualmente o “sistema público possível para o Brasil é oSUS, não há possibilidade de uma inflexão, de um novo sistema que garanta que seus avanços que tivemos sejam preservados. É necessário haver maiores recursos e parâmetros de gestão que orientem o funcionamento dos serviços. Apesar de suas dificuldades, por sua orientação humanista, é o SUS (funcionando nos termos do que está garantido na nossa Constituição) que pode garantir que o Brasil ofereça saúde com dignidade para todos”.
Gerson Salvador de Oliveira é graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP, especialista em Infectologia pela mesma universidade. Médico assistente da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo e infectologista do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Pedro Carneiro é graduado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto pela Universidade de São Paulo e mestrado em Saúde na Comunidade pela Universidade de São Paulo.
Confira a entrevista.
Foto: ocponline.com.br
IHU On-Line - Evidencia no Brasil um movimento em que o Estado está privilegiando planos de saúde em detrimento do SUS? Se sim, desde quando isso vem acontecendo e por quais razões?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - Desde meados da década de 1960 o Estado brasileiro estimula o setor privado em saúde, via incentivos fiscais. Até hoje incentiva, através de desconto no imposto de renda de despesas com saúde e isenção de impostos de serviços classificados como filantrópicos, entre eles os muitos dos principais hospitais particulares do país. Parte deste incentivo se deu com objetivo de utilizar os serviços de uma rede já instalada, mas sua intensificação tem a ver com ofinanciamento de campanhas para os legislativos e executivos. O poder de lobby das empresas de saúde tem se intensificado e a representação no parlamento de defensores do Sistema Único de Saúde tem diminuído.
IHU On-Line - Identifica uma tentativa de desmantelar o SUS? Quais são as evidências de que isso está acontecendo?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - Garantir atenção integral à saúde de toda nossa população custaria muito, e o Brasil nunca investiu num patamar que pudesse viabilizar plenamente esse direito. Em tempos de crise há algumas iniciativas claras de desmantelamento do que existe, como por exemplo, por parte do Governo Federal: a PEC 86, que estabelece que os percentuais mínimos para investimento em saúde devem ser calculados não mais sobre a receita bruta do Estado, mas sobre a receita corrente líquida; a Lei de Diretrizes Orçamentárias em que os recursos previstos para custear a saúde pública não chegam ao mês de outubro de 2016; a “Agenda Brasil”, proposta pelo Senador Renan Calheiros que em seu texto original orientava “avaliar possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS por faixa de renda”; a proposta do deputado Eduardo Cunha: PEC 451 que “inclui como garantia fundamental, plano de assistência à saúde, oferecido pelo empregador em decorrência de vínculo empregatício, na utilização dos serviços de assistência médica”; PEC "do Impositivo" que garante aos parlamentares disporem de 15% do orçamento da saúde, a ser destinado a partir de emendas; a aprovação pela Câmara de Medida Provisória, que visava anistiar dívidas bilionárias de multas das empresas de medicina de grupo, vetada pela presidente Dilma. São diversas evidências de que existem iniciativas institucionais de favorecimento do setor privado ao custo do desmantelamento do SUS.

“O poder de lobby das empresas de saúde tem se intensificado e a representação no parlamento de defensores do sistema Único de Saúde tem diminuído

IHU On-Line - Que avaliação faz dos SUS ao longo desses 25 anos? Quais foram os avanços e quais ainda são as principais dificuldades do Sistema Único de Saúde brasileiro?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - A saúde a ser garantida como direito de todos e dever do Estado em nossa Constituição, através de um sistema único, provavelmente é a maior conquista cidadã da história de nossa República. Houve grandes avanços: o Plano Nacional de Imunizações; a oferta de atenção primária à saúde, principalmente através da estratégia saúde da família; o programa nacional de HIV/AIDS; os serviços de transplantes e captação de órgãos; a atenção pré-hospitalar a partir do SAMU; entre outros. Os principais obstáculos: financiamento insuficiente, serviços com qualidade muito heterogênea, dificuldade de acesso à atenção especializada na maioria dos municípios, leitos de internação insuficientes, emergências lotadas, recursos humanos com formação muito heterogênea e com vínculos dos mais variados devido à "salada" que existe na gestão da saúde pública: há servidores federais, estaduais e municipais admitidos por concursos, outros contratados por autarquias, outros através de terceirizações, organizações quer seja para formação quer seja para a carreira dos profissionais de saúde.
IHU On-Line - A que atribui as dificuldades do SUS, como a oferta insuficiente de serviços e os déficits de leitos de internação, por exemplo? O problema é orçamentário, de gestão ou outras razões? Quando se trata de funcionamento do SUS, que pontos fundamentais devem ser considerados?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - Em resumo há problema de gestão, há problema de recursos humanos, mas o financiamento é muito insuficiente. O Brasil, até o ano passado, era a sétima economia do mundo e o 72º em investimento em saúde. Não há gestão eficiente que seja capaz de entregar serviços de excelência sem o financiamento adequado.
IHU On-Line - Quais são as principais contradições que percebe entre o financiamento do Estado ao setor privado e ao setor do SUS?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - O setor privado conta com quase 60% do que é gasto anualmente em saúde para dar conta da assistência de cerca de 25% da população, enquanto o pouco mais de 40% de recursos restantes deve dar conta da assistência dos demais 3/4 em situações ordinárias, além de atender os que têm planos de saúde em tratamentos que os planos se isentam de cobrir: atenção pré-hospitalar, emergências, tratamentos para câncer, transplantes, medicamentos para HIV e hepatites virais por exemplo, além de ações de vigilância e imunizações para toda a população.
Ao SUS cabe, como diz o professor Ricardo Teixeira, fazer muito mais com muito menos. Além do orçamento insuficiente, a União continua oferecendo descontos no imposto de renda para serviços privados e isentando de impostos grandes serviços privados classificados como filantrópicos.
IHU On-Line - Que comparações faz entre o SUS e o sistema de saúde público de outros países da América Latina?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - Brasil é o único país da América Latina que oferece sistema universal de atenção à saúde não só a seus cidadãos, mas também a estrangeiros. Mas o financiamento per capita é menor do que a média de países da América Latina.

“O Brasil é o único país da América Latina que oferece sistema universal de atenção à saúde não só a seus cidadãos, mas também a estrangeiros

 

IHU On-Line - De que modo, além da questão do financiamento, a crise política pode impactar no SUS?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - Há um campo político, em torno da liderança de Eduardo Cunha, com uma agenda que pode ter sérios efeitos no SUS, por exemplo, pelalimitação do atendimento de mulheres vítimas de estupro, que inclui a possibilidade de aborto legal. A proposta de Cunha é que se exija o boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, retrocedendo numa garantia que data da década de 1940. Há disposição de tentar proibir a pílula do dia seguinte também. O estatuto da família, a redução da maioridade penal, a iniciativa de cancelar o estatuto do desarmamento, caso essas propostas sejam aprovadas, caberá ao SUSatender às pessoas afetadas.
IHU On-Line - O que seria um sistema de saúde público possível para o Brasil neste atual momento?
Gerson Salvador de Oliveira e Pedro Carneiro - O sistema público possível para o Brasil agora é o SUS, não há possibilidade de uma inflexão, de um novo sistema que garanta que os avanços que tivemos sejam preservados. É necessário haver maiores recursos e parâmetros de gestão que orientem o funcionamento dos serviços. Apesar de suas dificuldades, por sua orientação humanista, é o SUS (funcionando nos termos do que está garantido na nossaConstituição) que pode garantir que o Brasil ofereça saúde com dignidade para todos.
Por Patricia Fachin

PARA LER MAIS:


  • 28/09/2015 - 'Saúde caminha para um colapso', diz ministro
  • 09/07/2013 - O Brasil precisa de um novo modelo de saúde
  • 07/09/2013 - Programa Mais Médicos e os problemas estruturais da saúde pública brasileira. Entrevista especial com Nêmora Barcellos
  • 05/09/2013 - Condução do Mais Médicos pelo governo expõe 'sintomas' do SUS
  • 30/04/2015 - 53% dos leitos do SUS na RMPA estão sob administração privada
  • 15/08/2015 - Cai a proposta de cobrar no SUS. Se levada adiante, haveria um SUS para os que podem pagar e outro, dos indigentes, denuncia Ana Costa
  • 12/03/2013 - A segmentação e a iniquidade do sistema de saúde brasileiro. Entrevista especial com Luis Eugenio Portela Fernandes de Souza
  • 28/10/2011 - Porque o SUS perde com os subsídios na saúde
  • 28/05/2015 - Deputados financiados por planos de saúde declaram guerra ao SUS
  • 20/10/2015 - Meio milhão de brasileiros fica sem plano de saúde
  • 25/11/2014 - Livro vê 'todos contra todos' em planos de saúde
  • 10/01/2013 - Saúde brasileira. Equação insustentável
  • 07/07/2015 - Uma aposta nefasta: a segmentação do direito à saúde no Brasil
  • 12/02/2014 - A financeirização da saúde. Entrevista especial com Luiz Vianna Sobrinho
  • 18/12/2013 - "O Brasil precisa urgentemente de um pacto na saúde"
  • 12/11/2013 - A judicialização da saúde é direito constitucional?
  • VEJA TAMBÉM:


  • Sistema Único de Saúde. Uma conquista brasileira. Revista IHU On-lIne, Nº. 376
  • http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/sus-brasil-nunca-investiu-para-viabilizar-plenamente-o-acesso-a-saude-entrevista-especial-com-gerson-salvador-de-oliveira
  • Oferecemos arquivo de textos específicos, de documentos, leis, informativos, notícias, cursos de nossa região (Americana), além de publicarmos entrevistas feitas para sensibilizar e divulgar suas ações eficientes em sua realidade. Também disponibilizamos os textos pesquisados para informar/prevenir sobre crescente qualidade de vida. Buscamos evidenciar assim pessoas que podem ser eficientes, mesmo que diferentes ou com algum tipo de mobilidade reduzida e/ou deficiência, procurando informar cada vez mais todos para incluírem todos.