Ouví minha razão, e não o coração.Sou Júlia, tenho 68 anos, meu marido também. Há alguns anos
atrás sentia apreensão com sua saúde, estava acima do peso, sempre gostou muito
de trabalhar, mas chegava do serviço muito cansado, e desabava no sofá, sem
forças para nada. Fez dieta várias vezes, emagrecendo e voltando a engordar. Existia
uma tosse seca, depois vieram as dores no braço e na região do coração. Mas os
exames cardíacos não diagnosticaram maiores problemas, e tudo ficou como
stress. Eu sentia que algo estava errado, mas ele insistia em seguir o mesmo
atendimento médico de sempre. Lamento não ter insistido mais, expressando meus
medos, que estavam certos. É absurdo dizer, mas foi um alívio quando, por outro
problema de saúde, o médico consultado achou importante a avaliação das
artérias por um especialista. Encontramos toda sua estrutura venosa
comprometida, o cansaço era resultado de múltiplos problemas nesta área não
pesquisados, que acabaram resultando em sucessivas cirurgias, a última precisando
da ajuda da máquina de circulação extra-corpórea, por mais tempo do que seria
bom. O custo disto foi uma irrigação cerebral menor do que a necessária, com a
lesão da parte motora responsável pelo andar espontâneo. Tentamos todos os
recursos possíveis, sua angústia era muito grande, um mês no melhor possível
serviço desta área do país, não mudou o quadro. Mas serviu muito para
percebermos como ainda tínhamos muito preservado – ele podia trabalhar,
conversar. Existiam limites novos, sim, mas muito menores do que vimos
acontecer com outras pessoas no hospital. Nossos três filhos são parceiros e
presentes, um deles até trabalha junto com o pai. Guimarães Rosa: “A vida é ingrata no macio de si,
mas transtraz a esperança do meio do fel e do desespero. Ao que este mundo é
muito misturado”.Caso Real, Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga, e-mail –
bfritzsons@gmail.com
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